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Onde há mais pés há mais sapatos: o futuro da Indústria mundial do Calçado

Onde há mais pés há mais sapatos: o futuro da Indústria mundial do Calçado

24 Nov, 2025

Vasco Rodrigues, professor da Universidade Católica


Na sua apresentação, Vasco Rodrigues, professor da Universidade Católica, abordou o panorama geral da indústria mundial do calçado numa perspetiva passada, presente e futura. Na sua exposição destacou quatro factos principais que marcaram de forma significativa a evolução da indústria do calçado: a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC); alteração das preferências dos consumidores; a mudança dos canais de comercialização; e os desafios do comércio eletrónico. 

De facto, a entrada da China na OMC representou um acontecimento transformador. Durante os cinco primeiros anos da sua adesão, as suas exportações mais do que duplicaram e, volvidos esses anos, continuaram a crescer de forma significativa, acabando por abrandar desde 2015. Este percurso resultou, em parte, na diversificação das cadeias de abastecimento aos grandes produtores internacionais, ao perceberem que podiam facilmente exportar da China para todo o mundo, pelo que começaram a transferir a sua produção para a Ásia. Vasco Rodrigues identifica este como “o grande facto que potenciou uma mudança significativa no comércio do calçado a nível mundial”.  

Já as mudanças das preferências dos consumidores e dos canais de comercialização também estimularam fortes mudanças no mercado, nomeadamente, a ascensão do comércio eletrónico e a perda de importância das sapatarias independentes para formatos maiores e mais concentrados. Vasco Rodrigues destaca que “através do comércio eletrónico conseguimos chegar a qualquer parte do mundo, mas também é um facto que nem todas as empresas têm estrutura e capacitação para entrar neste tipo de comércio”.

Hoje, 90% dos 24 mil milhões de pares de sapatos produzidos a nível mundial vêm da Ásia, onde os principais produtores são a China, seguida da Índia (que praticamente não exporta), do Vietname, da Indonésia e do Paquistão. De destacar que qualquer um destes países sozinho, produz mais sapatos do que toda a Europa, que só representa 2,3% da produção mundial. 

No que diz respeito ao consumo de calçado, a Ásia ocupa mais uma vez o primeiro lugar. Já a Europa consome quatro pares de sapatos por pessoa por ano, a América do Norte cinco e a África um, tornando-se no único mercado por explorar.  Em termos de fluxos de comércio, também é possível constatar que a Ásia é o grande polo do negócio do calçado a nível mundial. 

Sobre o futuro da indústria, Vasco Rodrigues destaca um conjunto de forças que podem antecipar o que poderá acontecer. A primeira tem a ver com a demografia. Segundo os dados das Nações Unidas, a Ásia e África representam os dois polos de concentração demográfica mundial. Já a Europa é o único continente onde se espera um declínio. 

Em relação às preferências dos consumidores é mais difícil de prever, mas é possível apontar o conforto, a sensibilidade dos consumidores em relação à sustentabilidade, e o grau de confiança que o consumidor tem sobre o produto. Também a tecnologia é apontada como um motor capaz de moldar o futuro da indústria. 

Por último, em termos económicos estamos a atravessar um momento de fragmentação e reconstrução de blocos. Vasco Rodrigues, aponta que “é muito imprevisível o caminho que os EUA vão tomar e que as projeções apontam para um crescimento económico mundial desigual”. Na Europa, as expectativas é de um crescimento relativamente lento, em comparação com outras regiões. A par disto, existe também o risco de uma crise afetar a China. Assim, o futuro do mercado do calçado reserva grandes incertezas, mudanças e desafios, mas, ao mesmo tempo, também é uma época de grandes oportunidades, cabendo a cada um agarrá-las para não perder o comboio da evolução.  

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