Entrevista com Luís Todo Bom, autor do Guia de Sucessão para Empresas Familiares da Indústria do Calçado
Os principais desafios ao nível da sucessão residem na ausência de utilização, na grande maioria dos casos, dum processo estruturado de sucessão. E foi a partir desta constatação e da verificação de que os processos estruturados de sucessão referidos na literatura não são aplicáveis no sector, que decidi construir o modelo de sucessão LTB 2026.
O estudo conclui que, na maioria das empresas, os sucessores já estão identificados, mas continuam a ter pouca autonomia. Porque acontece esta situação e quais podem ser as suas consequências?
Os sucessores, têm em regra, dois constrangimentos. Nunca trabalharam, depois de concluídas as licenciaturas, em nenhuma empresa antes de entrarem na empresa dos pais.
E na empresa familiar estão afectos, em regra, unicamente a uma função de gestão, sendo a função comercial a mais comum. Têm, assim, um conhecimento reduzido das outras funções de gestão, pelo que os fundadores não sentem a confiança necessária para delegarem nos seus sucessores, maiores responsabilidades.
Defende que a sucessão deve decorrer ao longo de seis a oito anos. Porque é importante um horizonte temporal tão alargado?
A sucessão é um processo, não é um ponto no tempo, na família e na empresa.
Este prazo é necessário para que o fundador e o sucessor, percorram, sem pressa, e com detalhe e profundidade todos os passos que integram este processo, não apressando o processo de aprendizagem e de transmissão de conhecimento, do fundador para o sucessor.
Se analisarmos com atenção os nove passos que integram o modelo LTB 2026, temos, imediatamente, consciência de que este prazo não é longo, é o prazo necessário.
Acresce que o processo de sucessão tem implicações psicológicas, em particular para o fundador, que necessitam de tempo para serem assimiladas.
Quais são os erros mais comuns que observa nos processos de sucessão das empresas familiares?
O adiamento sucessivo da transferência de posse e responsabilidades de gestão, do fundador para o sucessor, é a situação mais preocupante no processo de sucessão do sector.
Este facto está, também, na base, da ausência duma definição clara do processo de desligamento do fundador à empresa, delegando a completa responsabilidade para a sua gestão, no seu sucessor.
Só após a saída do fundador é que o sucessor é reconhecido, pela estrutura da empresa, como o líder da mesma.
Em muitos casos, o fundador continua a desempenhar um papel muito ativo na gestão. Como se encontra o equilíbrio entre preservar a experiência acumulada e permitir que a nova geração assuma efetivamente a liderança?
A transmissão do conhecimento e experiência adquirida pelo fundador e que está na base do sucesso, crescimento e sobrevivência da empresa actual, ao sucessor é um passo essencial no processo de sucessão.
E é por esse facto que, no meu modelo, defendo um período longo para a transmissão progressiva e detalhada desse conhecimento.
O setor do calçado atravessa uma fase de forte transformação, marcada pela digitalização, pela sustentabilidade e pela internacionalização. Que perfil de liderança exigem estes novos desafios?
Os líderes do futuro terão de ser capazes de conviver, com normalidade e tranquilidade, com todas estas realidades, digitalização, robotização, sustentabilidade e internacionalização.
As novas gerações têm, em regra, os conhecimentos académicos que lhes permitem encarar, com optimismo, esses desafios.
Mas têm de ter um perfil mais cosmopolita, uma vivência mais internacional e redes de conhecimento e de influência mais alargadas.
Se pudesse deixar apenas uma recomendação aos empresários que ainda não começaram a preparar a sucessão, qual seria?
A minha maior recomendação para os empresários do sector, uns heróis que construíram com enorme esforço, sacrifício e empenho, as empresas actuais, seria a seguinte:
Acreditem nas capacidades dos vossos filhos, e preparem-nos para darem continuidade ao negócio que criaram.
Que impacto espera que este Guia venha a ter na indústria portuguesa do calçado nos próximos anos?
O guia que a APICCAPS elaborou, tem grande qualidade. É claro, rigoroso e toca nos aspectos essenciais da sucessão.
Se for lido com atenção, pelos fundadores e sucessores do sector, pode ser um factor de enorme importância para o crescimento, sustentabilidade e modernização do sector do calçado.

