A indústria portuguesa do calçado apresentou, em Felgueiras, os resultados do BioShoes4All, assinalando a conclusão do maior projeto colaborativo alguma vez desenvolvido pelo setor nas áreas da bioeconomia, sustentabilidade e inovação industrial.
A sessão de encerramento contou com a presença do Ministro da Economia de Portugal e reuniu empresas, centros tecnológicos, universidades e instituições públicas envolvidas na iniciativa, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Ao longo de mais de quatro anos, o BioShoes4All reuniu 69 parceiros, mobilizou um investimento de 60 milhões de euros e gerou mais de 200 resultados científicos, tecnológicos e industriais, muitos dos quais já se encontram prontos para aplicação industrial, reforçando a competitividade internacional do cluster português do calçado.
Manuel Castro Almeida, Ministro da Economia e da Coesão Territorial, no discurso de encerramento da conferência, destacou a ligação pessoal ao setor do calçado e o conhecimento das dificuldades enfrentadas ao longo dos anos. Sublinhou que este é um setor onde apenas os mais preparados conseguiram resistir: “As pessoas normais não conseguiram, só pessoas com talento especial, ou vários talentos especiais é que conseguiram sobreviver e fazer perdurar o setor do calçado”.
Apesar disso, considera que o setor continua a demonstrar capacidade de resistência: “o setor não está rendido, continua com dificuldades, são as dificuldades de cada tempo”. Para Manuel Castro Almeida, a aposta nos biomateriais representa “um salto no sentido correto”, mas que exige investimento público, porque “o setor não gera margem para fazer este tipo de investimentos, que são muito arriscados”.
Sobre o PRR, considera que as agendas mobilizadoras foram “a parte mais esperançosa do PRR”, porque permitiram aproximar empresas, universidades e centros de investigação. Resume essa ligação através da ideia de “transformar conhecimento em faturas”. Para o ministro, “o PRR com as agendas mobilizadoras definiu o padrão certo para obrigar grandes empresas a trabalhar com pequenas e médias empresas, que por sua vez têm que trabalhar com universidades, centros de investigação e laboratórios de inovação”. Embora reconheça que “não correu tudo bem nas agendas mobilizadoras”, considera que “na maior parte dos casos correu bem e noutros casos correu muito bem”.
Manuel Castro Almeida alertou, contudo, que o grande desafio começa agora: “É preciso transformar estes produtos em faturas”. Como explicou, “as agendas mobilizadoras consumiram 3 mil milhões de euros. Ou isto dá muita fatura ou valeu pouco a pena”. Defende que o Estado teve um papel essencial no apoio à investigação e às parcerias, mas que agora deve apoiar também a comercialização.
Na sua opinião, mais importante do que continuar a investir apenas em equipamentos é garantir mercado: “Eu prefiro colocar dinheiro na promoção dos produtos e ganhar dinheiro para comprar as máquinas sem precisar de apoio público para as comprar”. Nesse sentido, considera fundamental promover “Shoes from Portugal”, porque esse será “talvez o apoio mais determinante que o Estado pode dar ao setor”.
Sobre o projeto Bioshoes4All, classificou-o como “um exercício importante, foi uma prova arrojada”, dando os parabéns à APICCAPS e ao CTCP. Mas deixou um desafio claro: “Agora é preciso vender estes sapatos com estes produtos que vocês inventaram”.
O ministro alertou ainda para a redução futura dos fundos europeus: “Desta vez é mesmo a sério, vai haver menos dinheiro”. Explicou que o PRR terá de ser pago e que a Europa terá novos desafios financeiros, nomeadamente o reforço do investimento em defesa. Ao mesmo tempo, destacou a criação de um Fundo para a Competitividade europeu, com “402 mil milhões de euros”, mas alertou que pequenas empresas e centros de investigação terão dificuldades em competir isoladamente.
Por isso, deixou uma mensagem ao consórcio: “A única solução é organizarmo-nos em consórcio. Se forem sozinhos não vão conseguir. É necessário preparar futuras candidaturas para competir com grandes empresas e universidades europeias. A APICCAPS terá um papel fundamental de manter este grupo vivo e ativo para o futuro e novas candidaturas europeias.”
“Transformar conhecimento em faturas”: o desafio após o PRRNas palavras de Anabela Rodrigues, da Estrutura de Missão Recuperar Portugal, “o PRR contribuiu para dar o financiamento, dar as bases e a possibilidade de, em parceria, chegarem até aqui”. No entanto, considera que o trabalho mais importante começa agora, com a necessidade de escalar e entrar nos mercados. Como explicou, “não faz sentido uma fábrica candidatar-se ao financiamento público para comprar uma máquina se depois não tem pessoas para trabalhar com ela, nem produtos inovadores, nem conhecimento”. Da mesma forma, “pedir às entidades do ensino para fazerem investigação fechadas nos laboratórios das suas universidades” também não resulta, porque “todo este ecossistema é exatamente o que vai permitir o sucesso destes projetos”.
Para Anabela Rodrigues, os projetos da bioeconomia são “francamente promissores”, não apenas este consórcio, mas também os restantes projetos apoiados. Destacou ainda que Portugal é considerado pela Comissão Europeia um exemplo de boa gestão do PRR, pela forma como acompanhou a execução do programa: “Todas as semanas a Estrutura de Missão reúne com a Comissão Europeia e analisa marco a marco, meta a meta, onde estamos, quais são os problemas e que soluções podem ser encontradas”.
Sobre o fim do PRR, explicou que termina formalmente a 31 de agosto, mas que até essa data os projetos estarão executados fisicamente. No caso da bioeconomia, “já cumprimos a meta relativa a novos produtos e novos processos, superando a meta prevista”. Apesar de alguns projetos terem sido retirados por não conseguirem ser executados, foram encontradas soluções para evitar perdas de financiamento.
Para Anabela Rodrigues, o mais importante será o impacto criado: “o que verdadeiramente importará não será apenas a taxa de execução, mas os resultados que o PRR produziu”. Esses resultados já são visíveis nas empresas que afirmam que, sem este apoio, “não teriam adquirido maquinaria, recrutado mais pessoas, formado e capacitado os seus trabalhadores”.