O legado do projeto BioShoes4All
O Monverde Wine Experience Hotel, em Amarante, acolheu a conferência promovida pela APICCAPS e pelo CTCP que assinalou o encerramento do BioShoes4All. Ao longo de quatro anos, 69 entidades portuguesas uniram esforços para acelerar a transição do setor para a bioeconomia. O projeto chega agora ao fim com um balanço amplamente positivo, mas também com um novo desafio: transformar o conhecimento, as tecnologias e a inovação desenvolvidos em valor económico e oportunidades de negócio.
Antes da sessão de encerramento, as empresas Rodiro e Atlant apresentaram alguns dos resultados mais relevantes alcançados no âmbito do projeto, abrindo as portas das suas instalações para demonstrar, no terreno, como a investigação já está a ser convertida em soluções com aplicação industrial.
Sob o lema “Delivering the Future”, Paulo Gonçalves, diretor executivo da APICCAPS, no discurso de abertura, afirma que “há quatro anos, a indústria do calçado tomou uma decisão verdadeiramente histórica: lançar o Portugues Shoes Green Pact, um movimento de transformação que uniu empresas em torno de uma visão comum para o futuro da nossa indústria”. Aliás, o maior legado deste projeto é precisamente a capacidade de construir em comum. “Foi esta colaboração entre empresas, universidades e centros de investigação que permitiu transformar conhecimento em inovação e inovação em competitividade”.
O compromisso, subscrito por cerca de 140 empresas, tornou-se muito mais do que uma agenda ambiental. “Com o Bioshoes4All demonstramos que Portugal não se limita a acompanhar as grandes transformações da indústria mundial, mas a liderá-las”, acrescenta. Cedo se demonstrou que “a sustentabilidade não podia ser um projeto de uma única empresa, nem sequer de uma associação. Tinha de ser uma causa coletiva, um compromisso de um setor” para criar “uma nova forma de pensar, produzir e competir”.
Para o diretor executivo, a concentração de cerca de 90% da produção de calçado na Ásia, não é uma realidade com a qual o setor se possa conformar. Nesse sentido, mo passado dia 16 de junho, em Bruxelas, perante representantes das instituições europeias, decisores políticos, empresários e investigadores, a indústria portuguesa do calçado apresentou o resultado do Bioshoes4All, e demonstrou que é possível reduzir a dependência externa, reforçar cadeias de valor estratégicas e recuperar capacidade industrial.
A encerrar o discurso de abertura, Paulo Gonçalves deixou uma mensagem clara: “O Bioshoes4All pode chegar ao fim, mas deixa-nos muito mais que resultados. Deixa-nos uma indústria mais preparada, deixa-nos uma rede de colaboração mais consolidada e a confiança de que somos capazes de continuar a liderar a transformação nesta indústria. Se mantivermos esta capacidade de cooperar, de inovar e de acreditar no talento das nossas pessoas, o melhor da indústria portuguesa de calçado não ficará para trás.”
Pedro Dominguinhos, presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR, também enalteceu “esta noção de ecossistema” e “do potencial de trabalhar em conjunto”. Para o professor, “esta nova lógica de trabalhar em ecossistema permitiu escalar numa dimensão até hoje nunca vista”, mas agora é tempo “de evitar o vale da morte que vem pós-PRR”, porque “o Bioshoes4All não termina hoje”. Agora é necessário “transformar em vendas e em competitividade aquilo que são os resultados que estão a ser alcançados”, defende.
Na sua mensagem final, Pedro Dominguinhos elogiou ainda os resultados alcançados: “este é um bom exemplo de como o PRR conseguiu verdadeiramente transformar um setor, aumentando a sua competitividade, não apenas nacional, mas também internacional. E, como alguém dizia, este é um setor de inconformados obsessivos, por isso, estou convencido que continuarão a ser inconformados.”
Bioshoes4All, uma agenda inovadora e mobilizadoraCoube a Maria José Ferreira, diretora de investigação do CTCP e coordenadora do projeto Bioshoes4All, apresentar os resultados daquele que é considerado um dos projetos mais ambiciosos do cluster que está focado no desenvolvimento de um plano de ação para a sustentabilidade, ao promover a transição para uma economia baseada em recursos mais renováveis, centrada nas pessoas, no meio ambiente e numa sustentabilidade económica. Para a responsável, “este plano e estas ideias foram tornadas possíveis no âmbito do PRR”.
Neste caminho da transformação do setor, a aposta do projeto fez-se maioritariamente no desenvolvimento de biomateriais, em calçado ecológico e em novas tecnologias. No total, já foram desenvolvidos 46 produtos de calçado e marroquinaria e destes 45 produtos possuem menos pegada ecológica, 44 menor pegada de carbono e 27 menor pegada fóssil.
Ao nível dos materiais, um dos trabalhos que foi realizado foi identificar biocargas, biofibras e subprodutos da indústria alimentar, da indústria florestal, da indústria agroindustrial (que não tenham utilização nem para alimentação humana, nem para alimentação animal) e que pudesse ser usada para fazer novos materiais e novos produtos químicos.
Para a responsável do projeto “o uso destes materiais é também o contributo para a criação de novas cadeias de valor nacionais e aumentar a resiliência e autonomia da Europa e de Portugal”. Além disso, o objetivo é que estes materiais fossem produzidos também por tecnologias avançadas, mais digitais e inteligentes (também desenvolvidas no âmbito do projeto), “para tornar a indústria ultramoderna”.
Nesse sentido, estes biomateriais e os seus estratos estão a ser usados para produzir os novos biocouros. Uma meta do projeto passa, assim, por transformar o couro num material reconhecido como sustentável, quer pelas suas características intrínsecas quer pelo conforto e pela durabilidade. Nesse contexto, transformaram-se cascas de pinheiro, folhas de oliveira ou borras de café em produtos químicos. Desta forma, foi possível criar couros 100% bio (biocouros) estabilizados quimicamente com estratos vegetais.
O projeto investiu também, de modo significativo, na redução do consumo de água pela indústria de couros. Em certos processos os resultados demonstraram uma redução de 20% do consumo de água e a sua recirculação. Por último, também foi possível transformar os resíduos de produção da indústria do couro em ingredientes químicos para serem reintroduzidos no próprio couro e incorporar acabamentos de couros que não se usa água nem compostos orgânicos voláteis. Portanto, ao nível dos couros, foi feito um trabalho muito amplo em todas as áreas críticas do negócio, em termos de produção e em termos de produto.
Foram desenvolvidas as duas primeiras máquinas de injeção de termoplásticos expandidos por expansão física, na Europa. “Acreditamos que estas tecnologias podem fazer com que Portugal possa produzir produtos de calçado ao mesmo preço que seriam produzidos na Ásia”.
De salientar ainda, que o projeto apostou fortemente na digitalização e na robotização, é pioneiro na produção de calçado vulcanizado, está na vanguarda do desenvolvimento de biopolímeros, biosolas e bioborrachas (como o PVC, o TPU e o EVA) de origem natural feitas com casca de castanha e caroço de azeitona, e está fortemente empenhado na circularidade e rastreabilidade do calçado e na utilização da metodologia europeia designada de pegada ambiental de produto.
Também foram realizadas simbioses industriais em que se valorizaram resíduos de produção industrial de outros setores, através da LIPOR. O objetivo não passou por implementar industrialmente estas soluções, mas sim realizar estudos para entender a realidade nacional e a tipologia dos excedentes de produtos pós-consumo.
O projeto foi o primeiro de sempre a incorporar também a capacidade de investimento. Mais do que gerar uma espiral de inovação sem precedentes, foi possível investir em equipamentos para potenciar a produção destes novos biomateriais. Maria José Ferreira não tem dúvidas que graças e essa componente é possível “atravessar o tal vale da morte entre a investigação e a produção”.