Delivering the Future
Com moderação de Miguel Cadilhe, da APICCAPS, a mesa-redonda “Delivering the Future”, que decorreu da parte da tarde do evento e que contou com a participação de Luísa Sousa, da Monteiro e Ribas, Pedro Castro, da Alfot, Susana Ferreira, da Curtumes Boaventura, e Tiago Brandão Rodrigues, da Kyaia, teve como objetivo expor o impacto que o Bioshoes4All teve nas empresas, o legado e os desafios dos próximos passos para a indústria.
De facto, o BioShoes4All deixou resultados concretos nas empresas. Na Monteiro Ribas, Luísa Silva destacou “o desenvolvimento de um tecido revestido com 65% de conteúdo biobased”, já industrializado e disponível no mercado. O material incorpora um plastificante vegetal e casca da castanha, valorizando um bioresíduo nacional e criando novas oportunidades para a economia.
A adoção destes materiais pela McDonald's demonstra que as soluções sustentáveis desenvolvidas no projeto já estão a chegar ao mercado. “Se estes materiais forem utilizados em larga escala, podemos evitar o consumo de matérias fósseis. É um impacto real. Temos agora de chegar a quem vai contratar e fabricar”, acrescenta.
Também na Aloft, Pedro Castro considera que o maior legado do projeto foi o desenvolvimento de competências. Entre os resultados alcançados destacou a criação de uma formulação de borracha com 94% de origem biológica, desenvolvida em colaboração com a Michelin, bem como a implementação da tecnologia de expansão supercrítica de polímeros, que colocou Portugal na linha da frente do desenvolvimento desta solução para a indústria do calçado.
Pedro Castro conta: “De repente, quem queria desenvolver esta tecnologia, como a Nike, a Adidas ou a Salomon, sabia que a melhor equipa do mundo era um consórcio de quatro ou cinco pessoas e que estava cá em Portugal a desenvolver. Isto mudou completamente a empresa.” Pedro, não tem dúvidas, o projeto traduziu-se em notoriedade internacional para a empresa e para o setor. Além disso, destaca ainda a captação de talento qualificado.
Já Susana Ferreira, da Curtumes Boaventura, destacou dois desenvolvimentos implementados na empresa: “um novo acabamento de base aquosa, que reduz a dependência de matérias-primas de origem fóssil, e um sistema de reaproveitamento de águas residuais, que permitirá fechar o ciclo da água dentro da própria unidade industrial. Trata-se de um processo que ainda está em desenvolvimento, mas que representa uma mais-valia significativa para a empresa.”
Mais do que os produtos ou as tecnologias desenvolvidas, Tiago Brandão Rodrigues considera que o principal legado do BioShoes4All reside nas capacidades criadas: “Há projetos que deixam relatórios, há projetos que deixam equipamentos e há projetos que deixam capacidades. Os projetos verdadeiramente transformadores são aqueles que conseguem deixar uma capacidade coletiva que permanece depois de terminar o financiamento.”
O antigo ministro destacou ainda que “o setor deve agora avaliar se ficou mais capaz de inovar, industrializar e cooperar, mas sobretudo se conseguiu transformar conhecimento em produto, produto em mercado e mercado em vantagem competitiva”.
Todos convergiram na ideia de que o desafio do setor já não passa apenas por desenvolver novas soluções tecnológicas, mas por conseguir industrializá-las, ganhar escala e assegurar a sua adoção pelo mercado. A cooperação entre empresas, academia e centros tecnológicos foi identificada como um dos principais fatores diferenciadores do BioShoes4All e uma condição essencial para assegurar a continuidade deste processo de transformação.
Tiago Brandão Rodrigues foi claro: “Temos de entender se o Bioshoes4All, foi transformador ou se foi só uma existência momentânea.” De facto, o verdadeiro impacto do BioShoes4All não será medido apenas pelos resultados alcançados durante os quatro anos do projeto, mas pela capacidade que o setor terá, nos próximos anos, de transformar o conhecimento adquirido em inovação, crescimento industrial e competitividade internacional.
“O desafio é ganhar escala”
Depois de demonstrar a capacidade de inovar e de criar novas competências industriais, o setor do calçado enfrenta agora um novo desafio: transformar esse conhecimento em escala, conquistar o mercado e garantir a continuidade do trabalho desenvolvido no âmbito do BioShoes4All. Esta foi a principal reflexão da segunda parte da mesa-redonda que contou com os mesmos intervenientes.
Para Luísa Silva, a principal limitação já não está na capacidade tecnológica ou produtiva das empresas, mas sim na procura. Assim, considera que a maior barreira está “claramente a jusante”, defendendo que “os consumidores continuam a privilegiar critérios como o preço e a fast fashion em detrimento da sustentabilidade”. Na sua perspetiva, também as marcas desempenham um papel determinante, uma vez que continuam a trabalhar com modelos de negócio que dificultam a adoção de novos materiais e soluções mais sustentáveis.
Também Tiago Brandão Rodrigues partilha desta opinião: “Não basta produzir os materiais, os produtos e os componentes mais sustentáveis. É fundamental que exista alguém que os queira valorizar, e muitas vezes isso não acontece. Se o comprador disser que quer sustentabilidade, mas estiver sempre a decidir relativamente ao preço, não chegamos a lado nenhum.”
Pedro Castro acrescentou que a sensibilização das gerações mais novas poderá ser um fator decisivo para alterar este comportamento no futuro, defendendo a importância de projetos de educação ambiental, usando o projeto REA Júnior, promovido pela APA, como exemplo.
Susana Ferreira considera que existe uma clara assimetria entre as exigências impostas aos produtores europeus e aos produtos importados de países terceiros: “Estamos a competir com um mercado que não se rege pelas mesmas regras. Todos os produtos devem existir, mas que sejam etiquetados com aquilo que verdadeiramente são. E não usar nomes como ‘better leather, fly leather, best leather, pineapple leather’. Quer dizer, chegamos ao ponto que tudo é pele… A fruta passou a ter pele em vez de ter casca? Nós temos que ser muito respeitadores daquilo que são as obrigatoriedades da União Europeia, mas depois acaba por não haver uma competitividade de igual para igual com o resto do mundo”.
Pedro Castro também outro obstáculo ao crescimento das PME: a dificuldade em transformar conhecimento em processos industriais robustos e em criar equipas dedicadas à inovação. O responsável recordou que muitas das tecnologias desenvolvidas no âmbito do BioShoes4All exigiram anos de desenvolvimento, mas que hoje já se encontram no mercado.
De facto, considera que o investimento realizado permitiu posicionar a Aloft como uma referência internacional em áreas como a expansão supercrítica de polímeros, abrindo portas a novos clientes e projetos. No entanto, alerta para a dificuldade de as empresas portuguesas competirem com grandes estruturas internacionais: “Nós, para onde quer que vamos, confrontamos com macroestruturas, supercélulas de desenvolvimento. E como é que nós conseguimos competir com isso? É muito difícil. O nosso negócio é de 15 milhões de euros. Nós não temos escala.”
Para Tiago Brandão Rodrigues, um dos maiores desafios continua a ser ultrapassar o chamado “vale da morte” entre uma solução tecnicamente validada e a sua adoção pelo mercado: “Existe frequentemente este vale, que se transforma não num vale da oportunidade, mas num vale da morte. Metade cai da ponte e não consegue ir para o outro lado.”
Questionados sobre o papel do Estado neste processo, os intervenientes defenderam que a transição não poderá depender exclusivamente da iniciativa privada. O antigo ministro afirma que “para que uma empresa possa assumir o custo e o risco da inovação”, é necessário combinar a partilha do risco inicial, ter uma procura qualificada, ter a previsibilidade regulatória, ter concorrência justa e ter escala e capacidade interna de responder: “A inovação ganha escala quando o risco de não mudar se torna maior do que o risco de avançar. E esse é o ponto que temos que alcançar.”
De facto, Luísa Silva considera indispensável uma maior pressão regulatória europeia que incentive a adoção de soluções sustentáveis e promova condições de concorrência equilibradas, defendendo igualmente a continuidade dos incentivos públicos para apoiar empresas de menor dimensão. Na mesma linha, Pedro Castro entende que esta é também uma questão de soberania industrial europeia: “Tem que haver uma política comum. Acho que tem que haver uma definição clara dos sítios onde se tem que investir e ferramentas de apoio para que isso aconteça.”
Já Tiago Brandão Rodrigues defendeu que “na investigação de elevada incerteza, o apoio público deve ter maior peso, porque o benefício potencial é coletivo e o retorno privado é ainda, nessas fases, muitas vezes incerto”. Contudo, à medida que a tecnologia é demonstrada e o risco diminui, a participação privada deve aumentar, evitando, assim, que o Estado continue a financiar indefinidamente soluções sem mercado e que uma PME suporte sozinha um risco tecnológico.
Para o antigo ministro, o desafio passa agora por transformar esse conhecimento em adoção, escala e vantagem competitiva, defendendo que “a bioeconomia não é um capítulo verde da indústria do calçado”, é o próximo capítulo da sua história económica: “E esse capítulo há de ser escrito por quem conseguir juntar aquilo que durante demasiado tempo tratámos separadamente, a ciência e a fábrica, a sustentabilidade e a competitividade, as pessoas e as tecnologias, Portugal e a Europa.”
Para Susana Ferreira, a prioridade deverá continuar a ser “a qualidade”, mantendo Portugal ao nível dos melhores produtores mundiais e conciliando qualidade, sustentabilidade, responsabilidade social e economia circular.
Já Pedro Castro considera que, para além da inovação tecnológica, será fundamental reforçar a promoção internacional das empresas e da indústria portuguesa. Na sua opinião, a capacidade de comunicar e valorizar o conhecimento desenvolvido é hoje tão importante como o investimento em equipamentos ou tecnologia: “Mostrem-se maiores do que são e a dimensão vai acontecer”.
Por sua vez, Luísa Silva afirma que se tivesse “que alinhar uma prioridade era agarrar com unhas e dentes este foco que a Europa tem na sustentabilidade”, para acelerar o desenvolvimento de soluções mais circulares, reforçar a cooperação internacional e garantir continuidade ao investimento em investigação e inovação. O Bioshoes4All permitiu acelerar esta transição e acelerar a competitividade, crescimento económico, redução do impacto ambiental e criação de uma sociedade mais equitativa e saudável.
O BioShoes4All não criou apenas conhecimento, mas também capacidade industrial. O próximo desafio passa agora por transformar essa capacidade em escala, chegar ao mercado e assegurar a continuidade do trabalho desenvolvido, concretizando aquilo que o projeto definiu como “Delivering the Future”.

