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Produção mundial de calçado estagna, mas Ásia reforça hegemonia

Produção mundial de calçado estagna, mas Ásia reforça hegemonia

3 Set, 2026

Produção mundial de calçado atinge os 24,6 mil milhões de pares


A produção mundial de calçado manteve-se praticamente inalterada em 2025, aumentando apenas 0,1% para 24,6 mil milhões de pares, segundo o World Footwear Yearbook 2026, divulgado pela APICCAPS.

A evolução confirma a hegemonia da Ásia, responsável por 88,7% de todo o calçado produzido no mundo. A China manteve a liderança, com 13,7 mil milhões de pares e uma quota de 55,6%, seguindo-se a Índia, com três mil milhões, e o Vietname, com 1,7 mil milhões.

A Europa assume um papel cada vez mais secundário na produção mundial, representando apenas 2,1% do total, atrás da América do Sul, com 4,5%, e de África, com 3,3%. O continente europeu conserva, contudo, relevância nos segmentos de maior valor acrescentado e nas redes internacionais de distribuição.

As exportações mundiais recuaram 0,1% em quantidade, mas cresceram 1,6% em valor, atingindo 172 mil milhões de dólares (cerca de 147 mil milhões de euros). O preço médio de exportação recuperou para 11,65 dólares por par, ainda abaixo do máximo de 11,96 dólares alcançado em 2023.

Luís Onofre, Presidente da APICCAPS, sublinha que os dados do World Footwear Yearbook 2026 confirmam uma realidade que exige uma resposta firme da Europa: a produção mundial de calçado está cada vez mais concentrada na Ásia, mas isso não pode significar uma concentração das oportunidades e das regras do comércio internacional.

“Não podemos aceitar que a concentração da produção na Ásia se traduza numa concentração do comércio mundial e numa perda de capacidade industrial europeia. A Europa tem de defender os seus interesses e garantir que o comércio livre é também comércio equilibrado, assente em condições de concorrência justas e recíprocas. Não podemos continuar a abrir o nosso mercado sem exigir dos nossos parceiros o mesmo nível de abertura e de respeito pelas regras.”

China perde peso
nas exportações

Também no comércio internacional a Ásia mantém uma posição dominante, assegurando 84,3% dos pares exportados. A China exportou cerca de nove mil milhões de pares, equivalentes a 61,2% do total mundial, embora tenha perdido peso face aos 69,1% registados há uma década, sobretudo a favor do Vietname.
A Europa representou 13,1% das exportações mundiais em quantidade, mas apresentou o preço médio mais elevado, de 34,76 dólares por par, comparativamente a 8,02 dólares na Ásia. Países como a Alemanha, Bélgica e Países Baixos destacam-se essencialmente enquanto plataformas logísticas e de reexportação.

Nas importações, a Europa continuou a ser o principal destino mundial, concentrando 35,3% dos pares transacionados, seguindo-se a Ásia, com 25,5%, e a América do Norte, com 20,3%. O peso norte-americano caiu face aos 23,3% registados em 2016, enquanto África e América do Sul reforçaram a sua participação.

Ásia domina no consumo

O consumo mundial está igualmente a deslocar-se para a Ásia, que absorveu 56% de todos os pares consumidos em 2025. A China foi o maior mercado, com 4,8 mil milhões de pares, seguida da Índia, com 2,8 mil milhões, e dos Estados Unidos, com 1,95 mil milhões.

Apesar da dimensão do mercado asiático, a América do Norte manteve o consumo per capita mais elevado, de 4,6 pares por habitante, seguida da Europa, com 4,1 pares. Em sentido contrário, o consumo médio em África não ultrapassou 1,6 pares por pessoa.

Portugal resiste

Num contexto de forte concentração da produção na Ásia, Portugal manteve uma posição industrial relevante, com 74 milhões de pares produzidos em 2025, ocupando o 18.º lugar mundial. O país exportou 69 milhões de pares, no valor de 1.949 milhões de dólares, e importou 68 milhões de pares, no valor de 981 milhões.

Portugal registou, assim, um excedente comercial próximo de 968 milhões de dólares. Mais de metade das exportações portuguesas em quantidade, 58%, correspondeu a calçado de couro, confirmando o posicionamento nacional em segmentos de maior valor acrescentado.

A indústria portuguesa distanciou-se da espanhola na vertente produtiva, ao fabricar mais 14 milhões de pares. Espanha produziu 60 milhões de pares, exportou 164 milhões e importou 365 milhões, apresentando um défice comercial superior a dois mil milhões de dólares, números que evidenciam o peso crescente das importações e reexportações espanholas, enquanto Portugal preserva uma base industrial mais forte e uma balança comercial positiva.

O Presidente da APICCAPS destaca, ao mesmo tempo, que Portugal demonstra que é possível manter uma indústria competitiva na Europa, mesmo perante uma concorrência global muito forte.
“Portugal continua a investir de forma consistente na indústria, na inovação, na tecnologia, na qualificação e na capacidade produtiva. Os 74 milhões de pares produzidos em 2025 e o excedente comercial próximo de mil milhões de dólares demonstram que existe uma base industrial sólida e competitiva. Esta capacidade não surgiu por acaso: é resultado de décadas de investimento e de uma aposta permanente na modernização.”

Para Luís Onofre, os números portugueses devem ser encarados como um argumento para uma política industrial europeia mais ambiciosa.
“A Europa não pode abdicar da sua indústria nem aceitar que a sua produção seja progressivamente substituída por importações. Precisamos de uma estratégia europeia que combine abertura ao comércio com reciprocidade, condições de concorrência equilibradas e defesa da capacidade produtiva. O futuro da indústria europeia depende também da capacidade da Europa de defender os seus direitos no comércio internacional.”

O responsável da APICCAPS considera ainda que a posição de Portugal demonstra a importância de preservar uma indústria orientada para segmentos de maior valor acrescentado. “A nossa indústria tem mostrado capacidade para competir pela qualidade, pelo design, pela inovação e pela sustentabilidade. É precisamente essa capacidade que temos de continuar a reforçar, enquanto esperamos da Europa uma política comercial que não coloque as empresas europeias em desvantagem.”

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