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Como está a moda italiana a resolver os escândalos que a assombravam?

Como está a moda italiana a resolver  os escândalos que a assombravam?

28 Set, 2026

Indústria italiana da moda tem sido afetada por uma série de escândalos nas cadeias de fornecimento


As maiores marcas de luxo estão a reforçar a supervisão dos fornecedores depois de escândalos relacionados com fábricas que exploravam trabalhadores ter ameaçado manchar a sua reputação. Ainda assim, os críticos dizem que os esforços para garantir o cumprimento das regras perderam fôlego e que pouco foi feito para enfrentar os problemas estruturais que permitem a exploração laboral.

Nos últimos três anos, escreve a Business of Fashion, a indústria italiana da moda tem sido afetada por uma série de escândalos nas cadeias de fornecimento. Entre os episódios mais marcantes estiveram buscas policiais de madrugada a fornecedores de algumas das maiores marcas de luxo e a nomeação de administradores judiciais para a Dior, a Armani, a Valentino e outras empresas.

A polícia encontrou fábricas que forneciam as maiores casas de moda de luxo e empregavam trabalhadores sem documentos. “Estes trabalhavam 15 horas por dia, viviam em condições degradantes, recebiam apenas alguns euros por hora e utilizavam máquinas cujas proteções de segurança tinham sido retiradas para acelerar a produção”, escreve a BoF.

A tensão atingiu o auge em outubro do ano passado, quando Diego Della Valle, presidente da Tod’s, criticou publicamente o procurador italiano responsável pelos processos contra o setor, afirmando que as empresas que fabricam em Itália estavam a ser sujeitas a um escrutínio injusto.

As manchetes têm sido menos dramáticas nos últimos meses, mas as investigações continuam. Em julho, depois de encontrarem trabalhadores em situação irregular e máquinas sem condições de segurança em subcontratados, os procuradores solicitaram registos relativos às cadeias de fornecimento e à governação de nove marcas, incluindo a Chanel, a Moncler e a Brunello Cucinelli. Nenhuma delas foi constituída arguida.

As implicações vão além do cumprimento das regras. A indústria italiana do luxo assenta numa rede de produção muito fragmentada, com dezenas de milhares de pequenas e microempresas a fornecer as grandes marcas. Essa rede contribuiu para a reputação do artesanato italiano e ajuda a sustentar os preços elevados que as marcas de luxo cobram aos clientes. Mas também torna a cadeia de fornecimento mais difícil de acompanhar.

Como reagiram 
as marcas 
Os abusos ganharam destaque no início de 2024, quando um tribunal de Milão colocou a marca italiana Alviero Martini sob administração judicial, depois de a polícia laboral ter detetado problemas nos seus fornecedores. Os procuradores alegaram que a empresa não tinha tomado medidas adequadas para acompanhar as condições de trabalho na sua cadeia de fornecimento. A Armani foi sujeita à mesma medida em abril desse ano e a Dior dois meses depois.

As marcas tiveram de trabalhar com um supervisor externo para reforçar a fiscalização das suas cadeias de fornecimento. Nos três casos, agiram com rapidez suficiente para que o tribunal levantasse a supervisão judicial antes do fim do prazo de um ano inicialmente previsto. Processos relativos a outras marcas, incluindo a Valentino e a Loro Piana, seguiram um padrão semelhante: as marcas de luxo garantiram ter reforçado os seus procedimentos.

De acordo com a Business of Fashion “houve uma mudança visível para sistemas de supervisão mais rigorosos, com as marcas a realizarem mais auditorias e a reduzirem o número de fornecedores para limitar os riscos laborais. Estas mudanças, porém, também aumentaram a pressão sobre os fabricantes”.
“Quem está realmente a suportar os custos de tudo isto são os fornecedores. Ninguém paga o tempo gasto em auditorias”, disse Caterina Occhio, especialista em cadeias de fornecimento responsáveis que trabalha com a ONU, à BoF.

Os críticos afirmam que o maior desafio continua por resolver. Com efeito, “as cadeias de fornecimento ilegais sustentadas por abusos laborais são uma característica de um sistema de luxo que, historicamente, privilegiou as margens de lucro e a rapidez em detrimento do bem-estar dos trabalhadores”. 

Como reagiu o governo italiano
Além das medidas tomadas internamente, as marcas pediram apoio ao governo. Argumentam que as cadeias de fornecimento longas e complexas são extremamente difíceis de controlar, sobretudo quando os incidentes ocorrem em fábricas às quais a produção foi subcontratada sem autorização.

Há anos que as associações setoriais trabalham com entidades públicas para criar mecanismos que simplifiquem os procedimentos de controlo e facilitem a atuação responsável de marcas e fornecedores. Contudo, os resultados têm demorado a surgir e, por vezes, gerado polémica.

O governo italiano ainda não apresentou uma resposta nacional coordenada aos abusos nas cadeias de fornecimento, que também surgiram noutros setores, como a construção, a agricultura e a logística. Por isso, as empresas de moda têm de lidar com um conjunto disperso de auditorias, exigências contratuais e outros mecanismos de controlo.

A nível nacional, recorda a BoF, “as associações do setor defenderam um sistema comum de certificação para as cadeias de fornecimento da moda, com requisitos relativos a documentação, contratos, cumprimento da legislação laboral e fiscalização”. Essas disposições foram incluídas no projeto de lei do governo para as pequenas e médias empresas e aprovadas pelo Senado em 2025. Mais tarde, porém, foram retiradas pela Câmara dos Deputados, após uma vaga de críticas segundo as quais as alterações isentariam as grandes marcas de responsabilidade futura pelo que acontece nas suas cadeias de fornecimento.

O chamado Protocolo de Milão, uma iniciativa regional subscrita por autoridades locais, procuradores, polícia, sindicatos e associações setoriais, tornou-se o esforço mais avançado para criar um modelo de supervisão das cadeias de fornecimento da moda. Combina exigências contratuais ao longo de toda a cadeia (relativas aos direitos dos trabalhadores, à saúde e segurança e às contribuições para a segurança social) com uma plataforma digital de adesão voluntária que dará às empresas e às autoridades maior visibilidade sobre os fornecedores. Já existe uma versão de teste da plataforma, mas as associações setoriais e os programadores ainda estão a trabalhar no sistema final.

Os defensores dos direitos laborais têm, contudo, criticado o caráter voluntário da iniciativa e lembrado que medidas semelhantes noutros setores tiveram resultados limitados.

“Só o tempo dirá se estamos a criar os instrumentos certos”, afirmou Danila Passantino, responsável pelos assuntos jurídicos da Confindustria Moda, a divisão dedicada à moda da maior associação patronal de Itália. Segundo Passantino, o objetivo é passar de uma resposta sobretudo motivada por emergências para um sistema preventivo, capaz de travar os problemas antes de se tornarem escândalos, sem sobrecarregar ainda mais as empresas.
Uma parte importante desse esforço consiste em uniformizar a forma como as empresas acompanham os fornecedores. A Confindustria Moda pretende estabelecer normas comuns para auditorias e procedimentos de verificação, evitando que os fabricantes tenham de passar por controlos diferentes, dispendiosos e por vezes repetidos para cada marca que fornecem. A associação também quer apoio para ajudar as empresas mais pequenas a pagar auditorias e certificações.

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