Futuro da LVMH dependente da instabilidade global
O futuro da LVMH, grupo detentor da Louis Vuitton e da Dior, e do setor do luxo em 2026 dependerá, em grande medida, da evolução da crise com o Irão e da estabilidade no Médio Oriente. A mensagem foi deixada pelo CEO Bernard Arnault durante a assembleia geral de acionistas do grupo francês, realizada a 23 de abril.
Pela primeira vez, os cinco filhos do empresário intervieram publicamente no encontro, que abordou também o desempenho das principais marcas do grupo, o mercado chinês, a sucessão na liderança e o futuro da loja parisiense La Samaritaine.
Sobre o contexto geopolítico, Bernard Arnault sublinhou a incerteza do cenário atual. “Tudo depende da forma como esta crise se desenvolver. Pode transformar-se numa catástrofe global com consequências económicas extremamente graves, ou pode ser resolvida mais rapidamente, como todos esperamos”, afirmou, citado pela imprensa internacional.
De facto, a crise no Médio Oriente tem impactos diretos no setor do luxo, sobretudo por se tratar de uma região com elevado poder de compra e forte consumo de marcas internacionais como a LVMH. Assim, a instabilidade tende a reduzir o consumo de bens de alto valor, travar decisões de compra e diminuir o turismo de luxo, como no Dubai, em Abu Dhabi ou Doha, onde as lojas de grandes marcas e os aeroportos desempenham um papel central nas vendas globais do setor.
Para além disso, o contexto geopolítico pode provocar impactos indiretos, como aumento de custos logísticos, flutuações cambiais e perturbações nas cadeias globais de transporte e energia. No conjunto, estes fatores tornam o desempenho do luxo mais sensível à evolução da crise e ajudam a explicar a cautela demonstrada por vários líderes do setor.
Contudo, o líder da LVMH acrescentou que a empresa está bem posicionada para beneficiar de uma eventual recuperação do mercado chinês, que classificou como o segundo mais importante depois dos Estados Unidos, demonstrando confiança nas perspetivas de crescimento. A recuperação deste mercado é vista, desta forma, como um fator-chave para compensar eventuais fragilidades noutras regiões, reforçando a importância da China como pilar estrutural do crescimento do setor no médio e longo prazo.
Arnault destacou ainda o desempenho de várias marcas do grupo, referindo que a Dior “registou um forte crescimento, ao ponto de a procura ultrapassar a capacidade de produção”. No caso da Louis Vuitton, revelou existir uma lista de espera com milhares de clientes para a mala P9, desenhada por Pharrell Williams: “Estamos a produzir o mais rapidamente possível, mas trata-se de um trabalho artesanal, com cada peça feita individualmente por artesãos”.
O CEO reforçou ainda a confiança na evolução do grupo sublinhando que “está muito confiante no futuro da LVMH nos próximos cinco anos” e que encara as oscilações da bolsa como oportunidades de investimento.
Sucessão e futuro da La Samaritaine
Questionado sobre a sucessão na liderança do grupo, Bernard Arnault evitou comprometer-se com um calendário definido. O tema da sucessão tem sido uma das questões mais acompanhadas no seio do grupo, dada a dimensão global do LVMH e o facto de o empresário liderar o conglomerado há várias décadas, sendo frequentemente apontado como uma das figuras mais influentes do setor do luxo mundial.
“No ano passado, 99% votaram pela renovação do meu mandato por mais dez anos. Voltaremos a falar sobre isso dentro de sete ou oito anos”, afirmou, referindo-se ao apoio maioritário dos acionistas à sua continuidade na liderança.
O empresário afastou ainda rumores sobre uma possível venda da loja de departamentos parisiense La Samaritaine, um emblemático espaço comercial localizado no centro de Paris, junto ao rio Sena e próximo do Louvre. Fundada no século XIX, a loja tornou-se um dos símbolos históricos do comércio de luxo na capital francesa, tendo encerrado em 2005 para um longo e complexo processo de renovação. O espaço, que reabriu ao público em 2021, após 16 anos de obras, registou inicialmente um fluxo de visitantes abaixo do esperado. Contudo, Bernard Arnault garantiu que a querem manter: “É um ativo extraordinário e vamos fazer com que funcione”.