A indústria portuguesa de calçado em destaque na BoF
A conversa, moderada por Yasmine Dahlberg, da Business of Fashion, contou com a participação de Paulo Gonçalves, diretor-executivo da APICCAPS; Ana Correa, estratega de acessórios e calçado da WGSN; e Patricio Campillo, diretor criativo da marca Campillo e membro da BoF 500.
De acordo com o World Footwear Yearbook 2025, 88% do calçado produzido no mundo continua a ser produzido na Ásia. Contudo, a conjugação de tensões geopolíticas, volatilidade tarifária e uma crescente procura dos consumidores por produtos mais duráveis e de maior qualidade está a levar as marcas a reavaliar a sua dependência daquele continente.
Nos últimos anos, a APICCAPS impulsionou um investimento superior a 600 milhões de euros em automação, robótica e sustentabilidade, contribuindo para reposicionar Portugal de produtor de gama média para um dos principais polos internacionais de produção premium e de luxo. Atualmente, mais de 90% da produção nacional de calçado é exportada para cerca de 170 países. Os Estados Unidos são já o sexto maior mercado de destino das exportações portuguesas de calçado, tendo duplicado de dimensão na última década e atingido aproximadamente 100 milhões de euros em 2024.
Ainda assim, para Paulo Gonçalves, a competitividade portuguesa vai muito além da eficiência industrial. “As relações constroem-se com base na confiança e na transparência. Quando surgem problemas no processo produtivo, a solução começa pela capacidade de pegar no telefone e falar diretamente. Essa é a base de uma relação bem-sucedida entre designer e fabricante”, afirmou.
A discussão centrou-se na forma como estas mudanças estão a impactar marcas em diferentes fases de crescimento. Seguem-se algumas das principais conclusões.
Porque estão as marcas a produzir em Portugal?
A pandemia expôs a fragilidade de depender excessivamente de uma única região de sourcing — uma vulnerabilidade que a indústria continua a enfrentar. As tensões geopolíticas e a instabilidade comercial mantêm-se entre as maiores preocupações dos executivos de moda, sendo o setor do calçado particularmente exposto devido à forte concentração produtiva na Ásia.
Há cerca de duas décadas, Portugal optou por seguir um caminho diferente. Em vez de competir pelo preço, apostou na qualidade, na inovação e na especialização.
“Se tentássemos competir pelo preço, não teria resultado”, explicou Paulo Gonçalves. “As marcas produzem hoje em Portugal porque existe um alinhamento estratégico. Estudamos cada marca e procuramos encontrar o parceiro industrial certo.”
Patricio Campillo testemunhou essa realidade durante as suas visitas ao país. “Quando visitei Portugal, percebi que podia sonhar com uma ideia e vê-la concretizada. Impressionou-me o grau de especialização dos fabricantes, o conhecimento acumulado e a tradição necessária para transmitir esse saber-fazer. Tudo isso está profundamente alinhado com o ADN da nossa marca.”
A oferta portuguesa também se diversificou significativamente. Embora tradicionalmente associadas ao calçado em couro, as fábricas nacionais adaptaram-se à produção de sneakers premium, ao desenvolvimento de novos materiais sustentáveis e à utilização de recursos naturais como a cortiça, hoje elemento central nas coleções da Campillo.
Longevidade, transparência e confiança: os novos códigos do luxo
Segundo Ana Correa, da WGSN, os consumidores estão a redefinir as suas prioridades.
“Os consumidores procuram cada vez mais longevidade, durabilidade e até marcas que disponibilizem serviços de reparação. Já não se trata apenas de um produto; trata-se de construir uma relação com o consumidor.”
Para Patricio Campillo, a durabilidade é uma filosofia de design.
“A durabilidade é uma das coisas mais importantes. Gosto de pensar que a roupa e os sapatos que uso transportam parte da minha história e das experiências que vivi com eles.”
Paulo Gonçalves resumiu a proposta de valor da indústria portuguesa:
“Hoje, Portugal oferece o melhor de dois mundos: a agilidade e o saber-fazer de uma indústria especializada, combinados com a capacidade industrial e a eficiência exigidas pelas marcas globais.”
A origem do produto tornou-se igualmente um elemento diferenciador. Como refere Ana Correa, etiquetas como “Made in Portugal”, “Made in Spain” ou “Made in Italy” são frequentemente associadas pelos consumidores a qualidade, durabilidade e autenticidade.
A relação entre designers e fabricantes como motor de inovação
Por detrás de cada par de sapatos bem concebido existe uma relação próxima entre criador e fabricante.
“A empatia é fundamental nas relações de negócio. Falamos de pessoas apaixonadas pelo que fazem. Comunicar com a minha fábrica em Portugal é quase como falar com família”, afirmou Campillo.
Ana Correa defende que os fabricantes devem ser envolvidos mais cedo no processo criativo, não apenas como executores, mas como parceiros estratégicos.
“Não se trata apenas de fabricar um produto. Trata-se de trabalhar em conjunto para construir uma marca.”
Segundo a especialista, esta proximidade é particularmente relevante para designers emergentes, permitindo explorar novos materiais, novas construções e abordagens criativas mais ousadas.
Nesse domínio, a APICCAPS tem desenvolvido uma intensa atividade de ligação entre jovens criadores e a indústria portuguesa, colaborando com instituições como a London College of Fashion, o Fashion Institute of Technology e o Institut Français de la Mode.
Um polo industrial orientado para a sustentabilidade, eficiência e saber-fazer
Nos últimos três anos, através do projeto FAIST (Factories of the Future – Agile, Intelligent, Sustainable and Technological), o setor investiu mais de 60 milhões de euros em automação, robótica e tecnologias avançadas de produção.
O resultado traduz-se em maior produtividade, consistência e capacidade de resposta às necessidades das marcas internacionais.
Paralelamente, através da Agenda Green Shoes, a APICCAPS apoiou as empresas na melhoria do seu desempenho em áreas como consumo de água, eficiência energética, embalagem e rastreabilidade.
“Esta iniciativa permitiu otimizar processos e estabelecer um modelo produtivo mais sustentável, tornando os fabricantes portugueses mais preparados para responder às exigências dos mercados internacionais”, destacou Paulo Gonçalves.
No entanto, para o responsável da APICCAPS, o verdadeiro diferencial continua a residir nas pessoas.
Recordando uma visita a uma fábrica em Felgueiras no início da sua carreira, Gonçalves descreveu o momento em que observou uma operária passar suavemente a mão sobre cada par de sapatos antes de o colocar na caixa.
“Demorei muitos anos a compreender aquele gesto. A paixão, o cuidado, o amor pelo que se faz. Portugal tem muito para oferecer, e não é apenas sobre sapatos.”

