Made to Matter
A indústria portuguesa da moda esteve em destaque nas Nações Unidas, em Nova Iorque, no passado dia 10 de setembro, com a iniciativa “Made to Matter: Portugal”, realizada em paralelo com a New York Fashion Week e integrada na reunião anual da United Nations Fashion and Lifestyle Network. Promovido pela APICCAPS e pelo Centro de Inteligência Têxtil (CENIT), com o apoio da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), o encontro reuniu representantes da indústria, designers, investigadores e responsáveis pela promoção internacional da economia portuguesa.
A conferência teve como objetivo apresentar internacionalmente a transformação da indústria portuguesa da moda e discutir o papel de Portugal perante os desafios que marcam o futuro do setor. Ao longo do encontro foram abordados temas como inovação, sustentabilidade, novos materiais, tecnologia, artesanato, produção de proximidade e colaboração ao longo da cadeia de valor, procurando mostrar como tradição e conhecimento industrial podem ser conjugados com investigação e inovação.
Entre os participantes estiveram César Araújo, presidente da ANIVEC e da Comissão Executiva do consórcio do Projeto Lusitano, Luís Onofre, presidente da APICCAPS, Carlos Moura, da AICEP, Joana Frazão Duarte, fundadora e diretora criativa da Béhen, Armando Cabral, designer e empresário, Maria José Ferreira, diretora de Investigação do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal, e Kaleigh Tirone Nunes, da Petratex. O programa contou ainda com a participação de Annemarie Hou, diretora executiva do UN Office for Partnerships, e de Vera Ávila, Representante Permanente Adjunta de Portugal junto das Nações Unidas.
Sob o mote “Made to Matter”, a iniciativa procurou projetar internacionalmente uma fileira que reúne têxtil, vestuário, calçado, componentes e artigos de pele e que tem vindo a reforçar o investimento em conhecimento, tecnologia e sustentabilidade. Mais do que apresentar produtos, Portugal levou às Nações Unidas um modelo industrial assente na combinação entre saber-fazer, capacidade produtiva, inovação e uma crescente preocupação com o impacto ambiental e social da moda.
Uma indústria assente numa cadeia de valor integrada
Para César Araújo, uma das características distintivas da indústria portuguesa está precisamente na proximidade entre os diferentes elementos da cadeia de valor: “Penso que, quando falamos da indústria portuguesa, temos de falar de todo o ecossistema, porque temos uma cadeia de valor muito forte e muito integrada, temos empresas que trabalham em conjunto, temos conhecimento e temos uma indústria que foi construída ao longo de muitas décadas. Além disso, temos uma equipa de pessoas apaixonadas por fazer moda. Essa paixão também está no produto. Quando produzimos uma peça de vestuário ou um par de sapatos em Portugal, fazemos isso com coração.”
O responsável sublinhou que essa estrutura permite à indústria portuguesa ir além da produção e apostar na criação de valor. A sustentabilidade foi, precisamente, um dos temas centrais da sessão. Para César Araújo, a questão deve ser encarada de forma transversal, abrangendo materiais, processos produtivos, energia e água.
É também a proximidade entre fabricantes, designers, fornecedores, centros tecnológicos e universidades que, na sua perspetiva, constitui uma das vantagens competitivas de Portugal: “Temos os designers, temos os fabricantes, temos os fornecedores, temos os centros tecnológicos e temos as universidades. Todos podemos trabalhar em conjunto. E isso permite-nos ser muito mais rápidos.”
Também Luís Onofre, da APICCAPS, destacou a capacidade de adaptação de uma indústria que, ao longo das últimas décadas, teve de responder a diferentes desafios: “Eu penso que uma das nossas principais vantagens é a nossa capacidade de adaptação. Somos uma indústria muito resiliente. Temos a capacidade de encontrar soluções. E temos uma grande persistência.”
Num mercado onde o preço deixou de ser suficiente para diferenciar a produção, o responsável aponta para outros fatores de competitividade: “Hoje, já não podemos competir apenas pelo preço. Temos de competir pela qualidade, pelo design, pela inovação e pela capacidade de responder rapidamente às necessidades dos nossos clientes.”
A proximidade aos mercados e a capacidade de produzir pequenas quantidades são outras das características apontadas por Luís Onofre. Portugal tem “uma indústria muito próxima dos mercados” e consegue “produzir pequenas quantidades”, o que “é muito importante, sobretudo quando falamos de marcas que procuram produtos diferenciados”.
O presidente da APICCAPS realçou ainda que a sustentabilidade não pode ser reduzida à escolha de determinado material: “Não podemos olhar apenas para um produto e dizer: «Este produto é sustentável porque utiliza determinado material». É muito mais complexo do que isso.” A produção local, as condições de trabalho, os materiais e os processos devem, segundo o próprio, ser considerados em conjunto.
Da investigação à produçãoMaria José Ferreira, do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP), apresentou o projeto BioShoes4All como exemplo de uma cadeia de valor que procura transformar resíduos em novos materiais e soluções.
O projeto envolve 69 parceiros, entre empresas e instituições de investigação, e trabalha em áreas como biomateriais, circularidade e novos processos de produção. Entre os exemplos apresentados esteve o aproveitamento de casca de pinheiro e de borras de café para a produção de agentes utilizados no tratamento do couro.
A responsável do CTCP defendeu que a inovação depende da colaboração entre diferentes áreas: “Precisamos dos investigadores para fornecer conhecimento e desenvolver os materiais ou as tecnologias. Precisamos dos designers para criar designs que os consumidores adotem. Precisamos das pessoas da produção, porque sabem como produzir. Precisamos das marcas. E precisamos dos consumidores. E precisamos de todos juntos.”
A passagem da investigação para o mercado é, contudo, um dos desafios: “Porque uma inovação que fica parada, que não é vendida e que não chega aos consumidores não é inovação. Esta colaboração é fundamental.”
Para Kaleigh Tirone Nunes, da Petratex, Portugal já dispõe de soluções tecnológicas capazes de ganhar escala, mas continua a ser necessário aumentar a procura por parte das marcas: “A inovação existe e, em Portugal, está pronta para ganhar escala — ou já ganhou escala. O que falta é procura. O que falta é as marcas aderirem a estas soluções.”
Sustentabilidade começa no designKaleigh Tirone Nunes apontou ainda a necessidade de mudar a forma como a sustentabilidade é pensada, colocando-a no início do processo de desenvolvimento de um produto: “Começa ao nível do planeamento. Começa por perceber: Quão bem conhece o seu cliente? O que é que ele quer? Qual será o futuro dos produtos que está a criar? E como pode planear melhor para criar menos desperdício?”
Luís Onofre defendeu igualmente uma abordagem mais abrangente à sustentabilidade, que passa pela produção local, pelas condições de trabalho, pelos materiais e pelos próprios processos produtivos.
César Araújo acrescentou que a sustentabilidade deve ser acompanhada por dados e evidência, desde a utilização de água e energia à pegada de carbono e ao fim de vida dos produtos. A indústria, defendeu, terá de conseguir medir o impacto das suas escolhas para demonstrar os resultados.
O saber-fazer como património
A importância do conhecimento acumulado e da componente humana da indústria foi outro dos pontos destacados por César Araújo, “porque, no final do dia, são as pessoas que fazem a indústria”: “Temos conhecimento que foi acumulado ao longo de gerações. Mas temos de conseguir passar esse conhecimento para as novas gerações.”
A dimensão artesanal esteve particularmente presente na intervenção da designer Joana Frazão Duarte, fundadora da Béhen, que trabalha com técnicas artesanais portuguesas e artesãos de diferentes regiões do país. O objetivo, explicou, passa por aproximar esse património das novas gerações e integrá-lo numa linguagem contemporânea.
Para a designer, não faz sentido criar ou colocar roupa no mercado sem que ela tenha uma intenção: “Obviamente, é importante para mim pensar no design porque, mais uma vez, a geração mais jovem precisa de olhar para estas peças e pensar: «Isto é giro, eu quero usá-lo.» Esse é o objetivo. Design primeiro.”
Para Joana Frazão Duarte, preservar o artesanato implica também reconhecer o trabalho e o conhecimento das mulheres que mantêm vivas essas técnicas: “Não é simplesmente um trabalho que fazem antes do jantar ou qualquer outra coisa. É arte. E é preciso muito tempo. E o tempo é o maior luxo, na minha opinião.”
Portugal como destino de produção e luxo
Também o designer de calçado Armando Cabral destacou a relação entre produção, autenticidade e Portugal. Depois de ter iniciado a produção da sua marca entre Portugal e Itália, o designer está a trabalhar na transferência da produção para Portugal.
O designer considera que a perceção internacional sobre a indústria portuguesa também mudou: “Durante muitos anos, as pessoas da indústria conheciam Portugal como uma opção B para mão de obra barata ou para uma produção de preço mais baixo. Mas, avançando para os dias de hoje, graças a todo o excelente trabalho que a APICCAPS tem desenvolvido, as pessoas conhecem agora Portugal por aquilo que realmente fazemos bem.”
A herança produtiva portuguesa, acrescentou, pode ser também uma componente do valor associado ao luxo: “É um país com uma enorme herança e uma grande tradição de produção ao longo de centenas de anos. E muitas das grandes marcas produzem agora em Portugal. Temos estas empresas familiares que são fiéis àquilo que fazem. E penso que daí também surgem o luxo e a autenticidade, que é, na realidade, aquilo que Portugal proporciona.”
Levar a indústria portuguesa ao mundoNo encerramento, Carlos Moura, da AICEP, realçou as forças do calçado português e da moda portuguesa, assentes “nas palavras inovação, artesanato, talento, capacidade industrial, criatividade e sustentabilidade”.
O responsável da AICEP defendeu ainda que a sustentabilidade deve ser entendida para além dos materiais, incluindo também a utilização de água e energia e as condições dadas aos trabalhadores. Apontou igualmente para a internacionalização como um dos objetivos para o futuro: “O nosso objetivo é aproveitar estes pontos fortes no futuro e criar ligações entre estas empresas e o talento português e os mercados internacionais, com a indústria internacional, e mostrar cada vez mais isto em todo o mundo.”
A sessão terminou com a intervenção de Vera Ávila, Representante Permanente Adjunta de Portugal junto das Nações Unidas, que resumiu a mensagem do encontro através da ligação entre tradição, inovação e moda: “Penso que a principal conclusão que podemos retirar daqui é perceber até que ponto a tradição, a inovação e a moda - que todos adoramos - podem andar de mãos dadas.”
Para a diplomata, a combinação entre conhecimento artesanal e tecnologia é uma das bases para uma indústria mais sustentável: “Penso que aquilo que fizemos hoje, enquanto portugueses, foi demonstrar como o saber-fazer artesanal e a tecnologia, quando conjugados, estão efetivamente a contribuir para uma indústria da moda sustentável.”
O conceito “Made to Matter”, afirmou, procura também afastar-se da lógica de consumo rápido: ““Made to Matter” cria produtos que têm um valor que vai além da moda rápida de uma única estação.”
A presença portuguesa nas Nações Unidas terminou, assim, com uma mensagem de colaboração internacional: “Mas não podemos fazê-lo sozinhos. Por isso, é ótimo estarmos aqui nas Nações Unidas, porque temos de o fazer em conjunto. Não funciona se formos apenas um país a fazê-lo.”
Também Luís Onofre destaca que Portugal conseguiu provar que existe “uma forma diferente de produzir. Uma forma baseada na qualidade, no conhecimento, na inovação, na sustentabilidade e nas pessoas. Devemos continuar a fazer aquilo que sabemos fazer e continuar a trabalhar com os nossos parceiros internacionais”, porque “Portugal não está sozinho”.