Os clássicos estão de volta?
Durante anos, as sapatilhas, ou os sneakers, pareceram ter resposta para todas as ocasiões. Nas mais recentes semanas de moda, o sapato clássico voltou a reclamar espaço e a mostrar que a sua força está precisamente na capacidade de evoluir.
Em Milão, na apresentação da coleção masculina para a primavera/verão de 2027, Thom Browne levou à passerelle brogues e mocassins com solas vermelhas e saltos elevados. Giorgio Armani mostrou mocassins e slippers com partes superiores em materiais entrançados, enquanto Ralph Lauren recuperou os sapatos de cerimónia, alguns feitos em lã com padrão espinha de peixe. Três interpretações distintas de modelos com uma longa história.
Paris confirmou a vontade de revisitar os códigos da elegância masculina. Na coleção da Celine, surgiram versões suaves e compactas dos sapatos com fivela lateral, os monk straps. A Vogue incluiu-os entre as propostas de calçado mais relevantes da estação, a par dos sapatos de cerimónia de Ralph Lauren. Também a Ernest W. Baker, marca sediada no Porto, apresentou em Paris uma coleção assente na alfaiataria e na combinação entre elegância europeia e atitude contemporânea.
Londres acrescentou outra perspetiva. Na semana de moda de setembro, a Labrum trabalhou com a Dr. Martens e apresentou botas, sapatos e mocassins da marca britânica com aplicações decorativas. É um exemplo de como uma forma reconhecível pode entrar numa proposta criativa sem perder a sua identidade.
Os sinais não começaram nesta estação. Já na cobertura das semanas de moda masculina anteriores, a Vogue Business destacava o interesse por mocassins flexíveis e confortáveis, capazes de acompanhar tanto roupa descontraída como peças de alfaiataria. E a Business of Fashion tinha identificado uma maior presença de botas e mocassins nas coleções masculinas, associada a uma procura crescente por alternativas às sapatilhas.
Isso não significa que exista um único caminho para o calçado masculino. As passerelles de 2027 também mostraram sandálias, sapatilhas e modelos experimentais. Mas a permanência dos sapatos clássicos, estação após estação, sugere algo mais duradouro do que uma tendência passageira: o homem voltou a interessar-se por vestir bem os pés, mesmo quando dispensa o fato e a gravata.
Para a indústria portuguesa de calçado, esta evolução abre uma oportunidade. O futuro do sapato clássico não depende de repetir um modelo antigo. Passa por lhe dar conforto, leveza, qualidade de construção e uma linguagem capaz de dialogar com novas gerações. Afinal, um bom mocassim, um derby ou um sapato de cerimónia podem mudar de expressão sem perder aquilo que os torna relevantes: serem peças feitas para voltar a usar, muito depois de terminar a estação.

