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A utilização de tecnologia é essencial na transformação sustentável da indústria

A utilização de tecnologia é essencial na  transformação sustentável da indústria

28 Ago, 2025

Entrevista com Rui Moreira, Centro Tecnológico do Calçado


Responsável pelo Roteiro da Descarbonização da Indústria, projeto desenvolvido pelo Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP), Rui Moreira conversou com
o Jornal da APICCAPS sobre os principais desafios que o setor enfrenta e explicou de que forma as novas tecnologias poderão desempenhar um papel decisivo na transformação positiva da indústria.

Que leitura faz da evolução do setor nos últimos anos, em especial no que toca à sustentabilidade? 
Existe uma evolução muito significativa. Numa primeira fase, há 15 ou 20 anos, a palavra “sustentabilidade” era associada ao desempenho ambiental e as empresas responderam com a implementação de sistemas de gestão ambiental, constituindo-se um núcleo muito alargado de empresas da fileira com a certificação pela norma ISO 14001. Este processo permitiu trazer para o interior das PMEs a quantificação e melhoria contínua do desempenho ambiental. Com o decorrer do tempo, o conceito e as práticas de sustentabilidade foram sendo alargadas aos domínios da responsabilidade social, ética e governança. Neste sentido, PMEs da fileira têm vindo a desenvolver ações no domínio ESG (Ambiental, Social, Governança) e a reportar as suas práticas através de Relatórios de Sustentabilidade. 


A certificação das empresas e produtos e o reporte de sustentabilidade são instrumentos relevantes para evidenciar de modo transparente e confiável, junto das partes interessadas (por exemplo, clientes e entidades financiadoras), a evolução das empresas no percurso da melhoria da sustentabilidade.


Já estão disponíveis os primeiros resultados do Compromisso Verde. Como avalia estes resultados?
Os resultados alcançados demonstram a relevância da descarbonização para as empresas da fileira do calçado. Os resultados indicam que, entre os anos de 2015 a 2022, existiu uma redução de cerca de 29% das emissões de Gases de Efeito de Estufa (âmbito 1 + 2). A redução de emissões, principalmente no âmbito 2, decorre do investimento efetuado em UPAC (Unidades de Produção para Autoconsumo – sistemas solares fotovoltaicos) e na contratualização de energia de fontesr enováveis. Numa amostra de 104 empresas da fileira, o número de empresas a usar UPAC aumentou de 1 (em 2015) para 61 (em 2022) o que é demonstrativo do investimento efetuado na autonomia energética e no caminho para o cumprimento de objetivos de descarbonização.


Qual o grau de adesão por parte das empresas e que tipo de metas estão definidas?
A iniciativa Compromisso Verde alcançou 146 empresas, que assinaram e assumiram o compromisso com a iniciativa, tendo 104 empresas concluído o processo de cálculo das emissões de GEE para os anos de 2015 e 2022. De salientar que as empresas participantes representavam, em 2022, aproximadamente mil milhões de euros de volume de negócios e mais de dez mil postos de trabalho. As metas de descarbonização ao nível da União Europeia (UE) estão integradas num pacote legislativo “Fit for 55”, que operacionaliza o Pacto Ecológico Europeu e que define, como objetivos centrais da descarbonização, a redução das emissões de
GEE em pelo menos 55% até 2030, face a 1990, e colocar a UE no caminho para alcançar neutralidade climática até 2050.


Que papel têm as tecnologias emergentes (como digitalização, rastreabilidade, biomateriais) na transformação sustentável da indústria?
A utilização destas tecnologias é essencial na transformação sustentável da indústria. A digitalização integra já múltiplos processos utilizados na indústria de calçado, na área de corte automático, na robótica, na prototipagem e na gestão e controlo de processos. Em relação à rastreabilidade, o desafio é chegar a toda a cadeia de fornecedores de modo fiável sendo, igualmente, neste caso, essencial a digitalização para gerir de modo eficaz e eficiente (com menor custo possível) o volume de informação a abranger. Os biomateriais são materiais alternativos já utilizados que permitem reduzir a dependência de fontes fósseis e, potencialmente, a pegada ecológica dos produtos. São tecnologias e processos em construção e integração que podem criar processos e produtos mais sustentáveis e competitivos. 


A circularidade é uma palavra-chave.  Há já exemplos concretos de boas práticas no setor?
Podemos abordar a circularidade como um ciclo de reaproveitamento e renovação de materiais, a durabilidade, a reciclagem e a redução do desperdício. Empresas produtoras de calçado e componentes têm vindo a desenvolver processos para integração de materiais reciclados nos seus produtos. No caso da produção de solas para calçado, as empresas têm efetuado investimentos significativos para conseguir maiores taxas de recuperação de materiais do próprio processo, minimizando desperdícios. Na indústria de marroquinaria, a Belcinto, por exemplo, aposta numa estratégia de durabilidade concedendo garantia vitalícia aos seus produtos.


A circularidade, entendida como um sistema onde os materiais e produtos sejam reutilizados e reciclados, é um processo que enfrenta desafios no design, materiais
que compõem o produto e na logística reversa. Com este enquadramento é de salientar a marca Lemon Jelly com o projeto “Closing the loop”. Estratégias de circularidade implicam sempre ações concertadas entre cliente (marca/distribuidor) e a empresa industrial, existindo, neste âmbito, outros projetos em curso.


A sustentabilidade pode ser uma vantagem competitiva para o calçado português nos mercados internacionais?
Sem dúvida. A sustentabilidade, como conceito que abrange o produto e o processo produtivo em termos ambientais, sociais e de governança, é uma oportunidade que deve ser potenciada pelas empresas da fileira por duas razões principais:

a) O calçado produzido em Portugal, pelo seu preço médio de exportação destina-se, cada vez mais, a mercados informados, conscientes, com maior poder de aquisição e, no caso do mercado europeu, com regulamentação tendencialmente exigente no que se refere a requisitos associados à sustentabilidade;


b) Para além da proximidade geográfica ao mercado europeu, as empresas da fileira possuem condições para desenvolver produtos com baixa pegada de carbono e com um processo produtivo transparente e ambiental e socialmente responsável.


Como conclusão, podemos dizer que a sustentabilidade é um “must”. Tendencialmente, apenas as empresas com estratégias de sustentabilidade consistentes e transparentes estarão em condições para ser competitivas e alcançar mercados de maior valor acrescentado.


Foto: Vânia Carneiro

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