Foco na reciclagem
No âmbito do projeto BioShoes4All foi possível juntar um conjunto de empresas, entidades e parceiros para procurarem soluções e modelos para a reciclagem na indústria de calçado. De que forma podemos acrescentar valor a um par de calçado em fim de vida? Como é que vamos reciclar? Onde e como pode ser aplicado o conteúdo reciclado?
Para dar resposta a estas questões, o painel “No reciclar é que está o ganho”, que decorreu da parte da manhã do evento e que contou com a moderação de Victor Ferreira, do Jornal Público, juntou Ana Cristina Carrola, da APA, Filipe Carneiro, da Lipor, e José Pinto, da Procalçado, para exporem os desafios e oportunidades da reciclagem e os resultados alcançados através da implementação do projeto nesta área.
Os dados publicados pela Agência Europeia do Ambiente, no âmbito do State of Environment Report de 2025, evidenciam que a transição verde tem que ser mais efetiva, num verdadeiro sentido de urgência e num imperativo compromisso coletivo. A mudança deve abraçar a competitividade, a segurança económica, a resiliência, a autonomia estratégica e uma abordagem intersectorial e multidimensional.
Ana Carrola e Filipe Carneiro defendem que a sociedade civil tem de estar consciente destas mudanças de paradigma e que é imprescindível haver ações de formação e uma responsabilização para a questão da circularidade e da reciclagem. De facto, existe um longo caminho a percorrer ao nível da literacia em matéria de economia circular.
José Pinto vai mais longe e afirma que o consumidor ainda não valoriza a reciclagem e a circularidade: “há sim um pequeno grupo que valoriza, mas esse pequeno grupo não chega para nos tornar economicamente viáveis. Enquanto não formos, como empresa, penalizados financeiramente por não cumprir as regras nunca vamos conseguir implementar estes modelos de reciclagem”. Na sua intervenção destacou ainda alguns exemplos de modelos de reciclagem implementados em duas das empresas do grupo Procalçado: na WOCK foi feito um teste de controlo de qualidade de calçado hospitalar reciclado e na Lemon Jelly foi criado um processo de “Closing The Loop”.
O próprio destacou ainda que os maiores desafios para a reciclagem do calçado passam pela identificação do produto e dos componentes que o compõe, bem como conseguir fazer a separação dos materiais sem contaminação. Já Filipe Carneiro afirma que “se conseguirmos implementar sistemas de recolha de calçado, desenvolver uma metodologia de caracterização e receber os resíduos em condições, podemos começar a criar uma base para iniciar a circularidade”. Não descura, no entanto, que é necessário “mais investimento, mais evolução tecnológica, trabalhar com diferentes componentes, uma legislação assertiva e um BioShoes4All 2”, para dar continuidade aos resultados alcançados com este primeiro projeto.
Ana Carrola destaca que no processo de reciclagem do calçado o design é crucial, defendendo que “o desenho do próprio produto tem de ter em mente a simplificação da própria reciclagem para não produzir um resíduo que não poderá ser reaproveitado”. Desde 1 de janeiro de 2025, que já é obrigatória a recolha seletiva de têxteis onde se incluem o calçado, e foi publicada, há muito pouco tempo, uma nova diretiva que vem trazer “uma obrigatoriedade da criação da responsabilidade alargada do produtor”.
Desta forma, quem coloca no mercado o calçado vai ter uma responsabilidade pelo tratamento do seu fim de vida, ou seja, o objetivo é colocar toda a cadeia de valor em colaboração no sentido de produzir com maior qualidade para depois ser reaproveitado. Por outro lado, também a regulamentação vai trazer a breve prazo uma obrigatoriedade de incorporar nos novos produtos material reciclado, ou seja, estes 30% que por vezes já é possível reincorporar no calçado não tarda nada, vão ser obrigatórios.
Tendo em conta que grande parte do calçado é fabricado na Ásia, com outro tipo de padrão de qualidade, Ana Carrola reitera que “quem tem alguma preocupação em colocar no mercado um produto que é mais durável e fácil de reciclar poderá beneficiar de um incentivo financeiro, no sentido de beneficiar quem faz bem e punir quem faz mal”.
Filipe Carneiro destaca os resultados promissores alcançados pelo projeto da circularidade do calçado implementado no âmbito do BioShoes4Alll, mas afirma que o desafio que agora se coloca é como “conseguir garantir à pessoa que quando lhe pedimos para reciclar irá existir um processo de reciclagem e que o produto será reintroduzido”. Nessa linha, José Pinto afirma que podemos nos guiar por exemplos já implementados, uma vez “que, hoje em dia, já existem sítios, fora de Portugal, onde se faz a separação completa de sapatos e se distribui esse material reciclado para outras empresas para serem reaproveitados e valorizados”. Já Ana Carrola desataca “os processos colaborativos e as simbioses para que a transição para uma economia circular seja mais rápida e ágil”. Tem de haver um envolvimento de toda a cadeia de valor.
Todos salientam que projetos como o BioShoes4All são essenciais porque sem eles seria mais difícil tomar decisões e arriscar para trilhar estes novos caminhos. É graças a projetos como este que surgem soluções inovadoras, que marcam a diferença e que acrescentam valor.