Como será a próxima geração de produtos?
Joaquim Gaião destaca a importância que o couro tem para a indústria do calçado e que o maior contributo que o setor deu ao projeto passou, nomeadamente, pela implementação de novos processos e no desenvolvimento de produtos diferenciados. De facto, a indústria do couro tem passado por um processo de melhoria contínua devido às restrições de produtos e às questões ambientais. Como destaca o próprio “foi na indústria portuguesa onde se aplicou pela primeira vez o princípio do poluidor pagador”, e nesse sentido, não é de estranhar que “a indústria de curtumes estivesse sempre associada uma indústria extremamente poluidora”.
No âmbito do BioShoes4All, foram criadas várias linhas de investigação, como tentar reduzir o consumo de águas, nomeadamente por via da recirculação, reduzir a carga poluente associada aos banhos residuais, desenvolver um couro com um peso específico inferior, desenvolver novos couros com base bio e capacitar a indústria de alternativas viáveis perante a possível restrição de substâncias químicas. Para Joaquim Gaião o trabalho “encontrar-se longe de estar concluído, uma vez que se abriram novas janelas que possibilitam novos desenvolvimentos”.
Pedro Castro, por sua vez, destaca a parceria da Aloft com o BioShoes4All em três capítulos. O primeiro foi no desenvolvimento de borrachas naturais, projeto que teve também como parceiro a Michelin, marca de pneus francesa. O segundo projeto passou pela expansão de alguns polímeros, utilizando o nitrogénio em vez de utilizar produtos químicos. E, por último, a utilização dos recursos do mar para desenvolver novos produtos, nomeadamente algas e dos desperdícios da frota de pesca. Pedro Castro almeja ainda “voltar a trazer calçado técnico automatizado de volta à Europa como um caminho a seguir como projeto futuro”.
Já Patrícia Caetano, refere que a participação no projeto assentou em dois pilares fundamentais e que “este projeto provou que a sustentabilidade pode caminhar lado a lado com a viabilidade e a durabilidade dos produtos”. O primeiro foi na maximização de compostos biológicos dos produtos. O principal desenvolvimento deste primeiro pilar foi a coleção Origin, que tem 72% de componentes biológicos que estão certificados ou que foram aferidos pela certificação do carbono 14. O segundo pilar baseou-se na utilização de matérias-primas recicláveis que poderão ajudar ou diminuir a extração dos recursos fósseis, do qual nasceu a coleção Moio, que tem 51% de reciclados provenientes da reciclagem de garrafas plásticas PET.
Como planos futuros Patrícia adiantou que pretendem “incorporar resíduos reciclados de outras indústrias nos revestimentos para além do uso de fibras têxteis recicladas” e “desenvolver um tecido revestido 100% PVC”. É nestes desenvolvimentos que a Monteiro Fabrics encontrou “uma oportunidade de diferenciar os produtos e de dar acesso a uma nova geração de tecidos revestidos mais sustentáveis sem que signifique canibalizar o couro”. Nessa linha, afirma que não querem “tirar o lugar ao couro na fileira do calçado ou dos estofos, mas que convivam amigavelmente em segmentos distintos de utilização, seja pelo conceito do produto, pelo target de preço ou mesmo pelo tipo de construção”.
No que diz respeito ao enquadramento legal para a indústria Pedro Castro defende que em Portugal “legislarmos em excesso e que, em vez disso, devíamos ter uma legislação simples, onde tens de cumprir as regras e se fores apanhado a errar, levas pela medida grande”. Joaquim Gaião também refere que “a legalização de novos produtos deveria ser simplificada” e que “a própria questão da desclassificação de resíduos deveria ser ainda mais ágil”.
Patrícia, por sua vez, refere a criação de um passaporte digital europeu de materiais, “para rastrear a origem e o percurso daquele material que foi reciclado, assegurando a transparência e credibilidade em toda a cadeia de valor, desde a sua origem até a sua utilização final”, e ainda assegurar o pilar social da sustentabilidade, garantindo que a obtenção daquele resíduo e o seu tratamento respeita critérios de trabalho digno e promove a capacitação das pessoas para a transição digital através da formação profissional”.
Regina Vilão lançou o desafio e todos aceitaram: “Qual o balanço global do BioShoes4All em três palavras?”. Joaquim fala de um projeto bastante “ambicioso” com capacidade de progredir ainda mais para alcançar a “sustentabilidade”, sem nunca esquecer a “autenticidade” dos materiais. Patrícia defende o alcance de uma “inovação” e de uma sustentabilidade “equilibrada” num verdadeiro compromisso coletivo, onde as “simbioses” são a base para a sua concretização. Pedro tinha três palavras, mas só disse uma: “metamorfose”. Para ele é mais que sabido que “as empresas têm que ter esta capacidade de rasgar com o que eram e de criar uma página nova”.

