Com formação inicial em Design de Comunicação pela FBAUP, Marana Monteiro decidiu transferir-se para a ESAD em busca de um ensino mais contemporâneo e ligado ao digital. A mudança, embora difícil, revelou-se decisiva: a combinação das duas escolas deu-lhe uma visão ampla e equilibrada entre a tradição académica e a inovação criativa. Agora, abraça a comunicação da a.li.as
Trabalhar na empresa foi uma escolha prioritária?Cresci rodeada de sapatos, devido à profissão do meu pai e daquilo que é o seu mundo. Lembro-me de ser pequena e passarmos por lojas de sapatos: o meu pai entrava e ficava uma data de tempo a analisar os sapatos. Pegava neles, tirava-lhes as medidas de todos os ângulos, dobrava e desdobrava. É uma memória que tenho comigo. E quando surgiu a oportunidade de saltar para este projecto e ajudar naquilo que é a minha especialização, começando pela criação da identidade da marca, do conceito, passando pela comunicação da marca, social media, presença em eventos… fez todo o sentido. É um projecto muito especial para mim, embora muito desafiante!
Quais têm sido os maiores desafios?Vivemos numa altura em que existe de facto uma grande preocupação com o impacto ambiental, a todos os níveis. Sabemos que a indústria têxtil e do calçado está entre as que mais recursos consomem e mais poluem, e foi por isso que desde o início quisemos que a sustentabilidade fosse o pilar da a.li.as.
No entanto, um dos grandes desafios é precisamente a banalização do termo “sustentável”. Cada vez mais marcas a utilizam quase como ferramenta de marketing, mas quando analisamos de perto os materiais que usam, a origem desses recursos (se são locais ou importados do outro lado do mundo), percebemos que muitas estão longe de cumprir o verdadeiro significado de sustentabilidade.
Outro desafio é a percepção do consumidor. Existe de facto um público que se identifica com um estilo de vida mais consciente, mas que muitas vezes, quando confrontado com o preço de produtos, decide fechar os olhos e virar para uma opção mais barata, de massa. É importante perceber que produzir de forma responsável implica um estudo rigoroso dos melhores recursos e processos e isso, naturalmente, tem custos mais elevados. Uma peça produzida em massa na China será sempre mais barata, mas o preço não reflecte o impacto ambiental e social que está por trás. O desafio tem sido, portanto, comunicar este valor acrescentado de forma clara, ajudando as pessoas a perceber que investir em calçado sustentável é também investir num futuro melhor.
Como definiria a a.li.as?A a.li.as é uma marca portuguesa de calçado realmente sustentável. Nasceu da necessidade de criar sapatos que nos liguem de volta à natureza e que nos deem consciência do movimento natural do nosso corpo. Desde o início, a sustentabilidade esteve no centro deste projecto mas rapidamente percebemos que podíamos ir mais longe.
O passo seguinte foi o barefoot: um tipo de calçado que respeita a anatomia natural do pé, promove uma postura mais saudável e devolve ao corpo a liberdade de movimento que muitas vezes o calçado convencional limita. O desafio esteve em unir essa filosofia a um design apelativo. Muitos modelos barefoot existentes no mercado são pouco convidativos visualmente, e por isso trabalhamos lado a lado com a nossa designer para criar sapatos que, além de todas as características técnicas do barefoot, fossem também casuais e divertidos, com cores e detalhes que quebram padrões e trazem leveza ao conceito. Acho que nos diferenciamos sem dúvida da maioria das marcas barefoot existentes.
Que conselho daria a um jovem que está a começar?Diria para não ter medo de começar pequeno e ir aprendendo ao longo do caminho. Não sentir que tem de ter tudo perfeito para poder lançar uma ideia nova. É fundamental acreditar na ideia, mas também estar disposto a ouvir com quem tem mais experiência, e a partir daí ajustar e melhorar, melhorar, melhorar. Procurar rodear-se de pessoas que acrescentam valor e que partilham da mesma visão faz toda a diferença. E, sobretudo, nunca perder de vista o “porquê” que está por trás do projecto porque é isso que vai dar força nos momentos mais difíceis.