Setor debateu no Porto os desafios globais, a transição digital e o reposicionamento europeu
“Onde há mais pés, há mais sapatos”:
Um dos momentos mais marcantes da conferência foi a intervenção de Vasco Rodrigues, professor da Universidade Católica, que apresentou uma análise abrangente sobre a evolução global do setor, identificando os fatores que determinaram - e continuarão a determinar - o rumo da indústria. O académico destacou quatro acontecimentos decisivos: a entrada da China na OMC, que “alterou para sempre o comércio mundial do calçado”; a mudança das preferências dos consumidores; a transformação dos canais de venda com o crescimento do comércio eletrónico; e os novos desafios colocados pelas grandes plataformas digitais.
Vasco Rodrigues recordou que a China duplicou as suas exportações nos primeiros cinco anos após a adesão à OMC, desencadeando uma reorganização global que levou muitos produtores internacionais a deslocarem fábricas para a Ásia. No consumo, a Ásia mantém igualmente a liderança, seguindo-se a América do Norte. A Europa continua a ser um mercado maduro, com cerca de quatro pares por pessoa por ano, enquanto a África surge como um mercado por explorar.
Quanto ao futuro, o professor destacou quatro forças que moldarão a próxima década: demografia, preferências de consumo, transformação tecnológica e reconfiguração económica global.
No que diz respeito ao consumo de calçado, a Ásia ocupa mais uma vez o primeiro lugar. Já a Europa consome quatro pares de sapatos por pessoa por ano, a América do Norte cinco e a África um, tornando-se no único mercado por explorar. Em termos de fluxos de comércio, também é possível constatar que a Ásia é o grande polo do negócio do calçado a nível mundial.
Sobre o futuro da indústria, Vasco Rodrigues destaca um conjunto de forças que se podem antecipar. A primeira tem a ver com a demografia. Segundo os dados das Nações Unidas, a Ásia e África representam os dois polos de concentração demográfica mundial. Já a Europa é o único continente onde se espera um declínio.
Em relação às preferências dos consumidores é mais difícil fazer futurologia, ainda que seja de “apontar o conforto, a sensibilidade dos consumidores em relação à sustentabilidade e o grau de confiança que o consumidor tem sobre o produto”. Também a tecnologia é apontada como um motor capaz de moldar o futuro da indústria.
Por último, em termos económicos, Vasco Rodrigues, aponta que “é muito imprevisível o caminho que os EUA vão tomar e que as projeções apontam para um crescimento económico mundial desigual”. Na Europa, as expectativas é de um crescimento relativamente lento, em comparação com outras regiões. A par disto, existe também o risco de uma crise afetar a China. Assim, o futuro do mercado do calçado reserva grandes incertezas, mudanças e desafios, mas, ao mesmo tempo, também é uma época de grandes oportunidades, cabendo a cada um agarrá-las para não perder o comboio da evolução.
Tecnologia, talento
e novos modelos de negócio
A conferência incluiu vários painéis temáticos. No debate sobre automação e robótica, representantes da AMF, Rodiro, Tropimática e Carité salientaram que a robotização no calçado é “muito mais complexa do que na indústria automóvel”, devido à variabilidade de materiais e coleções. O consenso foi claro: a tecnologia não substitui pessoas , mas antes qualifica-as.
Outro painel abordou novos modelos de negócio baseados em digitalização, personalização e inteligência artificial, com exemplos da Diverge, Bolflex/Rubberlink, DCSI Pro e CTCP. Os participantes destacaram que a personalização, a produção por pares e a integração de dados já estão a transformar processos e a aumentar eficiência, reduzindo desperdícios.
Reindustrializar a Europa:
“desafio ou ilusão?”
O painel final, com César Araújo (ANIVEC), João Maia (APICCAPS) e Kerstin Jorna (DG Grow), analisou o posicionamento da Europa no contexto global.
Os intervenientes defenderam a necessidade de regras iguais para todos, maior agilidade legislativa e políticas industriais que fortaleçam o “Made in Europe”.
João Maia sublinhou que a Europa perdeu quota produtiva (de 30% há três décadas para menos de 3% hoje), mas mantém o controlo das fases de maior valor acrescentado, como criatividade, gestão de marcas e calçado de gama alta.
A Conferência FAIST encerrou com a ideia de que o futuro da indústria do calçado será construído na convergência entre tecnologia, talento e tradição.
Se, por um lado, a automação e a inteligência artificial se tornam inevitáveis, por outro, o saber fazer artesanal e a criatividade continuam a ser pilares essenciais da competitividade portuguesa.
A mensagem final foi clara: as oportunidades existem, mas exigem visão, investimento e adaptação rápida, sob pena de perder o “comboio da evolução”.

