Bioshoes4All: Ação de demonstração de novos materiais
A APICCAPS e o Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP) promoveram uma ação de demonstração dedicada a novos produtos desenvolvidos no âmbito do projeto BioShoes4All, que pretende promover a transição da fileira do calçado para uma economia circular sustentável. O evento realizou-se no passado dia 3 de julho, no CTCP, em São João da Madeira, e contou com a visita a duas empresas de referência do setor que integram o projeto, a Monteiro Ribas e a Procalçado.
No decurso desta Ação de Demonstração, que contou com a abertura de Luísa Correia, diretora-geral do CTCP, seguida da intervenção de Fernando Alfaiate, presidente da Estrutura de Missão – Recuperar Portugal, foram partilhados e debatidos os desafios e as oportunidades de se alcançar uma bioeconomia circular e sustentável na indústria do calçado por parte de várias empresas de referência de diversos setores.
O evento teve como principal objetivo dar a conhecer os resultados práticos alcançados pelo Bioshoes4All, projeto inserido no plano estratégico para 2030 e com o apoio do PRR, que pretende impulsionar a fileira do calçado rumo a uma economia circular e à sustentabilidade. Luísa Correia destaca que o Bioshos4All “acarreta uma mobilização de toda a cadeia de valor com o foco na economia circular” e “uma transformação profunda nas formas de pensar, projetar e produzir calçado em Portugal”.
Fernando Alfaiate destaca a importância fulcral da aplicação da bioeconomia e que o projeto é “um caso exemplar que poderá ser colocado no âmbito do portfólio de projetos do PRR, não só a nível nacional como a nível europeu”.
A Ação de Demonstração contou com a apresentação do estudo estratégico de responsabilidade social, por Graça Fonseca e Gonçalo Mendes, da Because Impacts, à qual se seguiu a apresentação dos resultados obtidos até à data do Bioshoes4All, por Maria José Ferreira, diretora de investigação do CTCP.
Ainda no período matutino decorreu a tertúlia ‘Pensamento Bio e Circular’, com a moderação de Cláudia Pinto, do departamento de comunicação da APICCAPS, que contou com a participação com Artur Barros, da Simoldes, Filipe Carneiro, da LIPOR, Joana Meireles, da Atlanta e Pedro Ventura, da Cartonagem Trindade.
Coube a Luís Onofre, presidente da APICCAPS, e a José Pulido Valente, presidente do IAPMEI, os discursos de encerramento. Luís Onofre destaca a importância do Bioshoes4All e do FAIST, que pressupõem um investimento na ordem dos 100 milhões de euros, referindo que “este será um dos maiores ciclos de investimento de sempre no setor e uma das maiores provas de confiança no futuro da indústria de calçado em Portugal”.
O cluster, que integra mais de 40 mil pessoas, é importante para a economia nacional e exporta mais de 90% da sua produção para 170 mercados no estrangeiro e, nesse sentido, o desenvolvimento de novos materiais, biomateriais, materiais reciclados, calçado e marroquinaria diferenciados representam a bandeira para a transição verde.
Já José Pulido Valente, representante do Secretário de Estado da Economia, sai desta Ação de Demonstração “com um grande orgulho e uma grande esperança no futuro do setor”, destacando “que o que aqui se viu foi uma preparação profissional para as oportunidades que vão aparecer no futuro, num ambiente colaborativo entre todos os setores envolvidos no processo”.
A dimensão social da sustentabilidade – o desafio do futuro
Fala-se muito sobre o pilar ambiental, sobre a bioeconomia, os materiais circulares e sobre a transição do digital como os maiores desafios para a indústria do calçado. Desafiados pela a APICCAPS, Graça Fonseca e Gonçalo Mendes, da Because Impacts, desenvolveram um estudo sobre a dimensão social da sustentabilidade. O estudo partiu da realização de um benchmark internacional com o que melhor se faz na área do social, para se adaptar à realidade do terreno em Portugal, através de um inquérito.
De forma a realizar o estudo, definiram uma matriz de nove áreas sobre as quais estão organizadas as estratégias e os planos de atividades das grandes empresas do cluster. A matriz integra as áreas dos direitos humanos, o apoio à comunidade, a diversidade, equidade e inclusão, o desenvolvimento e a inovação social, saúde e segurança, condições de trabalho justas, cultura e saber fazer, atratividade e retenção de talento e a valorização da cadeia de fornecimento ou a cadeia de valor. Com base nos resultados obtidos traçaram recomendações para o setor.
Como conclusões gerais foi possível verificar que muitas empresas em Portugal já integram a componente social no relatório da sustentabilidade e que, tendo em conta as metas europeias, a dimensão social está a ganhar terreno a par da transição do digital e da economia circular. Graça Fonseca acrescenta ainda que “o pilar social é aquele onde é possível obter mais ligação e comunicação da empresa com os consumidores devido aos valores sociais inerentes”.
De facto, da mesma forma que hoje se estão a promover iniciativas que se dedicam a questões como os novos materiais, a reciclagem ou o impacto ambiental da indústria do calçado, também nos próximos anos será necessário promover iniciativas semelhantes para alcançar a sustentabilidade social.
O estudo recomenda que todas as empresas devem ter um código de conduta de direitos humanos implementado na sua organização, devem realizar campanhas de sensibilização e workshops sobre saúde mental, integrar imigrantes (uma vez que precisamos de mão de obra devido ao envelhecimento da nossa população), desenvolver mentoria intergeracional (envolvendo escolas e a passagem do conhecimento), bem como reter talento.
Para Graça Fonseca “a indústria do calçado não só deve promover este processo da bioeconomia, como também caminhar para a dimensão social e garantir que os sapatos em Portugal são feitos com equidade, respeito pelos direitos humanos e coesão social”.
Os resultados preliminares do Bioshoes4All
Coube a Maria José Ferreira, coordenadora do projeto Bioshoes4All, apresentar os avanços alcançados no âmbito do projeto, que assenta em cinco pilares: os biomateriais, a economia circular, calçado e marroquinaria, as tecnologias de produção avançadas, a capacitação e a promoção. Maria José Ferreira adianta com satisfação que “as metas que estavam previstas até 2024 foram todas atingidas e a execução técnica ronda os 75% ou 80%”.
No que diz respeito aos materiais baseiam-se no desenvolvimento de biofibras, polímeros e biocouros, através da seleção de subprodutos da indústria agroalimentar e agroindustrial, que já não tinham utilização para alimentação humana ou animal. Neste momento, têm também uma aposta forte em materiais complementares, como têxteis revestidos em que o suporte é bio e o revestimento tem uma elevada componente bio, como o poliuretano. Foram implementadas já seis linhas de produção piloto inovadoras, quer para bioborrachas e biosolas, bioeva, palmilhas e tingimento de elásticos.
Um outro aspeto muito importante no projeto é que este setor produz resíduos, gera efluentes e consome muitos produtos químicos. Uma aposta do projeto foi reduzir a água em mais de 20% em certos processos, reduzir certos reagentes, nomeadamente sal e sulfuretos em 50%. Os próprios resíduos do curtume estão a ser tratados e incorporados nas peles. Além da redução do consumo de água, redução da energia, da aplicação de processos mais curtos e ágeis, o foco tem sido a aposta em materiais reciclados na produção de solas e de calçado. Neste momento, os materiais termoplásticos, que são os mais usados nas solas, como o TR, o TPU e o PVC, podem ser reciclados.
De facto, o projeto da circularidade está muito focado em materiais e resíduos de produção. No que diz respeito à reciclagem do calçado no pós-consumo, a coordenadora do projeto assume publicamente “que nessa matéria passos futuros terão que ser dados noutros enquadramentos financeiros”.
“Pensamento Bio e Circular”, uma tendência ou uma urgência?
Será que o pensamento bio e circular está mesmo a transformar os nossos modelos de negócio, de produção e de consumo? Ou estamos apenas a ajustar os nossos velhos hábitos com uma nova linguagem? Qual o valor que carregam? É uma tendência? É uma urgência?
Pedro Ventura, da Cartonagem Trindade, acredita que a mudança para uma circularidade passa pela educação, “só assim se pode criar aqui uma forma de estar que vai muito mais longe do que todas as leis que se possa fazer nesta matéria”.
Da mesma opinião está Filipe Carneiro, da LIPOR, acrescentando ainda que “se deve recolher os têxteis e calçados, mas depois devem ser preparadas as condições para que este material reciclado chegue à indústria de modo a dar circularidade ao material”. Claro que esta circularidade acarreta custos. Recolher é a parte mais fácil, criar cadeias de distribuição de material reciclado para cluster do calçado é o verdadeiro desafio.
Assim, o problema prende-se mesmo com o que fazemos com os resíduos do calçado pós-consumo, sendo necessário dar-lhe valor. “O caminho é começar a olhar para o lixo como uma possível matéria prima”. disse. Por isso, o calçado, em fim de vida, tem aqui um grande desafio pela frente, mas também uma grande oportunidade.
Filipe Carneiro identifica ainda como obstáculo para reciclar calçado “com os multimateriais que compõe o produto, pelo que o material que se utiliza é uma questão fundamental”. Artur Barros, da Simoldes, identifica o mesmo problema na indústria automóvel. “Hoje o setor automóvel ainda não faz reciclagem do pós-vida dos automóveis. As únicas peças do automóvel hoje que são recicláveis são os para-choques feitos em polipropileno”, afirma.
Além disso, identifica a falta de material bio para utilizar na indústria. De facto, “os termoplásticos são dos poucos materiais que nós usamos hoje em dia que são 100% recicláveis”. Também Joana Meireles, da Atalanta, salienta que, atualmente, na empresa “só 50% dos resíduos são reciclados e que ainda falta um longo caminho de investigação e desenvolvimento para reciclar totalmente todos os desperdícios”.
Pedro Ventura e Artur Barros identificam ainda a logística como um problema para a sustentabilidade dos negócios. “Se queremos ser uma economia exportadora precisamos de uma logística capaz e com pouca pegada ambiental”, afirma Artur Barros. Já Pedro Ventura é da opinião que “não se pode colocar essa pressão do lado das empresas” porque “faltam os meios para lá chegar”. Ambos destacam a ferrovia como a maior fragilidade das nossas infraestruturas.
Joana Meireles acredita que “temos de olhar para a circularidade não como um custo, ou como um entrave, uma moda, ou como uma tendência de mercado, mas olhar para a circularidade como uma oportunidade de criar valor”. Defende ainda que a circularidade é uma questão de perspetiva conjunta de todos, uma vez que “podemos ter dificuldade em incorporar os resíduos da nossa indústria, mas pode ser a solução para outra”. Assim, o pensamento bio e circular passa por mudar não só os materiais, mas também os modelos mentais. A mudança está na interseção das empresas, dos consumidores e do meio ambiente.