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Poderão as novas tecnologias substituir o velho artesanato?

Poderão as novas tecnologias substituir o velho artesanato?

25 Nov, 2025

Perspetivas internacionais sobre inovação, sustentabilidade e tecnologia


O que define a indústria do futuro? Quais são os desafios que temos pela frente? Quais são os próximos passos e quais são as principais forças que impulsionam esta transformação no setor? De facto, a indústria do futuro do calçado está hoje a ser projetada nas fábricas, nos laboratórios, nas universidades e nas ideias que ousam ir além do que existe. Com moderação de Luís Moura, este painel, que decorreu no segundo dia da conferência do FAIST juntou Carrie Howles, da What the Future, Cristiano Figueiredo, do CTCP, e Sergio Dulio, da UTTIC, para debater perspetivas internacionais sobre inovação, sustentabilidade e tecnologia. 

Na ótica de Sergio Dulio, no que diz respeito à estrutura do fabrico de calçado e à postura das empresas, “vivemos num mundo muito polarizado, porque existe um conjunto massivo de produção organizado numa parte do mundo e na outra parte vê-se o oposto”. Partilha também que existem sinais de mudança de localização de produção, mas não em grande escala como aconteceu há uns anos. Nesse sentido, no futuro, não vê “muito espaço para grandes expansões em termos de volume, mas sim para consolidação e diversificação de negócios através da inovação e da adoção de novas tecnologias”.

Para Cristiano Figueiredo uma das principais dificuldades que os produtores de calçado portugueses enfrentam para se adaptarem e adotarem estas novas tecnologias e inovações passam “pelo custo, uma vez que algumas destas soluções são caras”. Daí a importância de projetos como o FAIST “já que une as empresas para alcançarem resultados, tornando a tecnologia mais barata”. Outra dificuldade passa pela própria organização, uma vez “as empresas precisam de fazer uma autoanalise e perceber o que querem automatizar e que processo querem digitalizar”. Por último, também existe a questão da capacidade, uma vez que é necessário formar pessoas nesta nova tecnologia, “porque não se trata apenas de comprar equipamento e montar uma linha de produção”. 

Carrie Howles acredita que a incorporação de tecnologias na produção de calçado é bastante benéfica. Para sustentar esta tese, Carrie usou o exemplo da impressão 3D de calçado que está a gerar bastante entusiasmo nas gerações mais jovens “porque estas não sentem a necessidade de fazer determinadas tarefas”. Assim, “a tecnologia é criada para fabricar sapatos de forma diferente, o que nos leva a analisar criticamente o nosso processo, procurando formas de minimizar o impacto nos trabalhadores”. 

Visão partilhada por Cristiano que defende que “a incorporação de robótica e automação para otimizar algumas operações irá melhorar a produção e o bem-estar das pessoas”. Contudo, salienta que “a impressão 3D e a prototipagem digital em si ainda carecem do toque, do cheiro e de vários aspetos, mas, ajudam a reduzir a quantidade de amostras, o consumo de material e a ser mais ágeis nas alterações ao projeto original”. 

Neste contexto, existe espaço tanto para os novos produtos e como para os produtos tradicionais e que as empresas mais pequenas são mais flexíveis para mudar ou adaptarem-se do que as maiores. Cristiano defende que “a tecnologia tem um papel fundamental quando falamos de números mais pequenos com grandes resultados”, ou seja, é necessário para eliminar todo o desperdício. 

No que respeita à forma como as empresas estão a incorporar estas novas tecnologias, Sergio Dulio enumera duas abordagens possíveis: inovação incremental ou uma inovação disruptiva. E ainda que existem três tipos diferentes de atitudes ou comportamentos que as empresas adotam: “adotantes convictos, que são empresas muito abertas à inovação; observadores cautelosos, que são empresas que basicamente observam o que se passa no domínio da inovação e das novas tecnologias, mas que não estão a adotá-las ou estão a adaptar-se a elas lentamente; exploradores rápidos, que são empresas que observam o que está a acontecer e incorporam imediatamente essas inovações nos seus processos”. 

Adianta também que a partilha de conhecimento é fundamental e que é importante ter em mente que a inovação não é apenas adotar novas tecnologias, mas sim mudar a natureza da empresa e mudar o modelo de negócio, que são viabilizados pela tecnologia. 

Não menos importante é o posicionamento do colaborador no meio deste processo. Não é incomum que os trabalhadores que costumavam executar tarefas típicas no processo de fabrico se tornem agora operadores de robôs. Esta é uma forma de requalificação, não de substituição. É uma modificação do trabalho, o que significa que é uma forma de manter a força de trabalho através da alteração de funções. Cristiano acredita que “precisamos de ter consciência que o ser humano precisa de se adaptar à tecnologia, mas a tecnologia precisa de ser feita de uma forma que esteja centrada no ser humano”. 

Não sabemos como serão os próximos 10 anos. Não temos uma bola de cristal.  Certo é a tecnologia estar centrada no ser humano, sem nunca esquecer de manter a competitividade e de adotar novas tecnologias por curiosidade para serem testadas com os talentos atuais. Claro, que nada acontece por magia. Requer esforço e, mais uma vez, abertura de espírito e colaboração de todos.

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