Reindustrialização da Europa: realidade ou ficção?
Numa mensagem gravada Kerstin Jorna, que acabou por não estar presente no debate, refere-se “à indústria portuguesa de calçado como uma história de sucesso, que combina tradição com tecnologia”. Uma mensagem otimista, tendo em conta o contexto incerto e difícil atual, caraterizado por uma forte concorrência, muitas vezes desigual. Há 30 anos atrás, a produção de calçado europeia representava 30% a nível mundial, mas neste momento não chega a 3%.
Tal como João Maia refere, a entrada de novos players, nomeadamente, da Ásia, no comércio mundial transformou por completo as quotas de mercado, “mas mesmo assim foi possível reter na Europa as fases de valor acrescentado da produção de calçado, conseguindo concentrar em si própria o processo criativo, a gestão das marcas, e a produção de calçado mais nobre”.
No fundo, a Europa teve a necessidade de procurar soluções produtivas mais competitivas para se manter competitiva no mercado mundial, acabando por concentrar a produção no nicho, no valor acrescentado e no luxo, ou seja, os 3% que hoje produzimos são, essencialmente, produtos premium e de marcas de luxo. Por outro lado, a indústria teve de encontrar soluções de produção na Ásia, sendo que Portugal, Espanha e Itália são aqueles que ainda resistem a produzir com competências e com saber fazer.
Na área do vestuário também tem existido uma profunda transformação no contexto comercial. César Araújo defende que “a Europa tem permitido que os países terceiros utilizem o mercado europeu, mas sem as mesmas regras, o que torna a competição desleal” e desafia os decisores políticos a centrarem os seus esforços na “reciprocidade de mercados”.
Partilha ainda que “estamos perante a maior fuga fiscal do século XXI na Europa”, em que países terceiros utilizam e abusam do mercado europeu sem pagar taxa aduaneira nem IVA. Também João Maia partilha desta opinião, ao reconhecer que “o processo legislativo europeu não é ágil”, ou seja, a Comissão Europeia já comunicou que irá haver uma alteração, mas só em 2028.
No que respeita à reindustrialização, João Maia acredita que o abrandamento das exportações chinesas criou uma mudança que pode dar origem a uma reindustrialização, ou seja, trazer as fábricas para perto dos mercados. Contudo, os números mostram que as fábricas estão a abrir noutros países asiáticos mais competitivos. O próprio defende que “reindustrializar passa por trazer para a Europa produção em que as nossas competências podem criar empresas e negócios competitivos na Europa”.
Para César Araújo “a indústria europeia tem que se transformar e tem que assentar em produtos de valor acrescentados baseados numa economia circular”, mas para isso é necessário que as regras e a legislação sejam iguais para todos, tanto para as empresas europeias como para as empresas que exportam para a Europa. Aponta como exemplo o facto de não ser permitido introduzir nas peças produtos químicos que prejudiquem a saúde humana, norma que só se aplica mais uma vez às empresas europeias, tal como a introdução do Passaporte Digital do Produto.
João Maia também defende que as bases da competitividade da indústria europeia passam pela regulamentação mais ágil e igual para todos e por sistemas de sustentabilidade. Assim, os desafios são enormes e é percetível que a indústria do vestuário e do calçado precisam de reforçar a sua notoriedade para conseguir ter dinâmica para gerar decisões políticas. Mais uma vez, “as sementes estão lá, mas ainda não floresceram”.

