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Robôs versus Humanos

Robôs versus Humanos

25 Nov, 2025

Painel "Da automação à robótica"


O que é a automação e como aparece a robótica? Que impacto é que têm na indústria de calçado? De que desafios estamos a falar? Qual passa a ser papel do artesanato e das pessoas com a chegada destas tecnologias? Passarão a ter um papel secundário? O que certo é que, para o cluster do calçado de Portugal continuar a ser uma referência internacional, é necessário aliar a criatividade a uma eficiência produtiva baseada no desenvolvimento tecnológico. E este ponto não é uma opção, mas sim uma exigência, tanto para responder à concorrência global como à escassez de mão de obra. 

O primeiro painel da conferência “From Automation to Robotics”, com moderação de Claúdia Pinto, da APICCAPS, juntou Albano Fernandes, da AMF, Ricardo Costa, da Rodiro, Víctor Almeida, da Tropimática e Ventura Correia, da Carité, e teve como mote debater o impacto destas mudanças. 

Vítor Almeida, na sua intervenção refere os desafios de implementar robótica numa fábrica de sapatos: “colocar robôs a fazer automóveis é uma brincadeira de crianças comparado com robôs a fazer sapatos”. A robótica no calçado é robótica avançada, porque tem que estar constantemente a adaptar-se aos produtos naturais (que tem grande variabilidade) e às novas tendências que estão na moda (no mínimo, são duas coleções por ano). Assim, a implementação da robótica numa fábrica passa por dois grandes dilemas: “os robôs estarem adaptados à realidade da fábrica de sapatos e da existência de técnicos dentro das fábricas capazes de reprogramar e ajustar os robôs às necessidades da produção de calçado”. 

Vítor alerta ainda que, “se excluirmos alguns nichos de mercado muito específicos, as empresas se não investirem em tecnologia dentro de algum tempo não vão conseguir produzir na Europa, porque não vão ter mão de obra para fazer aquelas operações mais básicas”. Daí a introdução de robôs estar a ser feita de uma forma muito intensa na indústria do calçado: “um jovem que sai da escola com mais qualificações, com mais formação, não está disponível para ir para um chão de fábrica oito horas por dia pincelar cola numa gáspea. É esta a realidade”.  

Já Ventura Correia destaca que a “incorporação da automação nas empresas é uma necessidade para garantir uma produtividade constante de qualidade com menos esforço humano”. De facto, “o robô é importante para que possamos ter pessoas disponíveis para executar as tarefas da sua exclusiva esfera”. 
Albano Fernandes, na sua intervenção, também reforça a ideia de que “não investir na automação acarreta custos muito mais elevados do que investir na robotização”, justificando que a Europa enfrenta um grave problema de escassez de mão de obra na realização de determinadas tarefas e que a robótica é a solução para enfrentar esse desafio. “Se as fábricas não forem um pouco mais ‘tecnológicas para captarem pessoas mais jovens e qualificadas não será possível ter sucesso e alcançar a competitividade na indústria do calçado”, disse.

Ricardo Costa alerta, usando como exemplo o caso da Rodiro, que “mesmo investindo em robotização é necessário continuar a investir nas pessoas”. Com a robotização “acabamos por ter mais pessoas que são mais eficientes e produtivas porque não estão tão desgastadas”, contudo, “é necessário investir em quadros preparados para esses investimentos”. Albano Fernandes também partilha desta visão. “Hoje todos querem trabalhar com um robô, já não há ‘sapateiros’, pelo que o processo não passa por dispensar pessoas, mas sim adaptá-las ao novo posto de trabalho porque não existem pessoas em excesso”. 

Com isto, Albano não pretende afirmar que o saber fazer não é importante, mas sim aliar as duas realidades: “Nós teremos sucesso em Portugal quando conseguirmos conciliar a robotização com o saber fazer. Nós somos sapateiros por excelência e com muita honra, mas temos que conseguir juntar as duas, onde as pessoas são essenciais e o trabalho é outro”. Ricardo também partilha desta opinião e acrescenta que “com a robotização não temos de ter receio da perda de postos de trabalho, já com a vinda de humanoides poderemos começar a levantar esse tipo de questões”.

Já Ventura Correia afirma que “temos de recriar novas profissões, assentes na programação, no sistema CAD ou no sistema CAM, para mantermos a qualidade do produto e não nos focarmos na quantidade do produto porque quantidade tem a China”, por isso, “quem pensa em investir num robô porque à partida vai ter melhor qualidade, maior quantidade, com menos pessoas, está enganado”. 

Para Vítor Almeida mais importante que o custo do equipamento em si é o custo do sucesso da transição, porque uma empresa que neste momento não está automatizada e que pretende investir na robótica e na automação industrial dentro de portas tem que dar um grande passo. “Não vamos aqui dourar a pílula”, este é um processo complexo que depende muito da forma como ele é implementado.

Todos concordam. Aqui a questão não é substituir pessoas por robôs, mas sim usar a automação para elevar o setor, ganhar escala e otimizar processos.  E se dúvidas havia, agora ficou tudo claro: a sobrevivência dos produtores de calçado depende da tecnologia.



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