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Transição do PRR para o novo ciclo está a ser feita

Transição do PRR para o novo ciclo está a ser feita

23 Jul, 2025

Entrevista a Fernando Alfaiate, Presidente da Estrutura de Missão do PRR    


“Transição do PRR para o novo ciclo está a ser feita” 
 

Criado em 2020, num contexto de pandemia, o PRR concretiza Investimentos e reformas com impacto significativo na economia e na sociedade, tornando-as mais resilientes no caminho da transição climática e digital. A equipa da Recuperar Portugal é liderar por Fernando Alfaiate e acompanha, de perto, a realização desse plano de Investimentos, em parceria com as entidades executoras, beneficiários, áreas governativas e com a Comissão Europeia. Recentemente, visitou o setor do calçado que, no âmbito do PRR, tem em agenda  investimentos superiores a 100 milhões de euros. Para Fernando Alfaiate “setores como o calçado têm demonstrado uma notável capacidade de adaptação e liderança” 

Visitou recentemente o setor do calçado, atualmente envolvido em dois grandes projetos no âmbito do PRR. Que inovações destacaria como mais surpreendentes na sua visita ao setor?
A visita ao setor do calçado, e em particular ao projeto BioShoes4All, revelou um setor profundamente empenhado na inovação sustentável. Destacaria a aposta clara em materiais de base biológica, em soluções de economia circular e na integração de tecnologias avançadas aplicada à cadeia de valor do produto. experiências pioneiras em áreas como a bioeconomia e a economia circular. Pelo seu enfoque em materiais de base biológica no projeto BioShoes4All, evidencia-se uma mudança de paradigma: unir a tradição produtiva nacional com sustentabilidade e inovação digital. É este casamento entre saber?fazer clássico e tecnologias avançadas que tem impressionado, especialmente quando envolve parceiros do tecido empresarial, universitário e científico em larga escala — sinal de uma abordagem colaborativa sem precedentes.

O PRR foi lançado em 2021, num contexto europeu muito diferente do atual. Tendo em conta os impactos prolongados da guerra na Europa, os objetivos do PRR mantêm-se os mesmos ou foram ajustados às novas realidades?
Os objetivos estruturantes do PRR — a dupla transição climática e digital, o reforço da resiliência económica e social, e a coesão territorial — mantêm-se válidos e até mais relevantes. No entanto, com as sucessivas reprogramações o PRR tem vindo a adaptar-se às novas circunstâncias, com reforço da autonomia estratégica em áreas como a energia, a indústria crítica e as cadeias logísticas. O programa REPower EU é um bom exemplo disso mesmo. A flexibilidade demonstrada, nomeadamente através do mecanismo de aditamento dos planos, permitiu aos Estados-Membros ajustarem prioridades sem perder o foco na transformação estrutural.

Em termos concretos, de que forma o PRR pode contribuir para uma transformação estrutural da economia portuguesa?
O PRR representa uma oportunidade única para posicionar Portugal na linha da frente da transição para uma economia mais sustentável, digital e resiliente. No caso concreto da bioeconomia, as agendas mobilizadoras têm um papel transformador particularmente relevante. Projetos como o BioShoes4All demonstram como é possível potenciar o conhecimento científico e tecnológico nacional, promovendo soluções baseadas em recursos biológicos, renováveis e sustentáveis.
Ao apoiar cadeias de valor emergentes e de elevado valor acrescentado, o PRR permite modernizar setores tradicionais — como o calçado — e estimular novos modelos de produção assentes na circularidade, na inovação e na redução da pegada ecológica. Trata-se de um investimento com impacto real, que reforça a competitividade da economia portuguesa, impulsiona a internacionalização e prepara o país para os desafios estratégicos da próxima década.

Considera que o modelo de colaboração adotado no BioShoes4All – envolvendo mais de 70 parceiros – pode servir de exemplo para outros setores industriais em Portugal?
Sem dúvida. O modelo de colaboração adotado no BioShoes4All demonstra que é possível reunir um ecossistema alargado de empresas, centros de investigação, universidades e entidades públicas em torno de um objetivo comum: a inovação sustentável e a criação de valor com base no conhecimento. Esta abordagem tem permitido escalar resultados, acelerar a transferência de tecnologia e promover soluções integradas com impacto económico e ambiental.
Naturalmente, a gestão de um consórcio com esta dimensão comporta desafios consideráveis, exigindo uma coordenação exigente e um alinhamento contínuo entre entidades com perfis diversos. Neste contexto, o papel dos líderes de consórcio é absolutamente crucial — são eles que garantem a coesão do projeto, a articulação dos contributos e o cumprimento dos objetivos definidos. O sucesso do BioShoes4All prova que, com liderança forte e visão partilhada, é possível concretizar projetos ambiciosos com impacto transformador.

Quais são os principais desafios que identifica na execução dos projetos financiados pelo PRR no setor industrial, e como estão a ser superados?
Os prazos exigentes de execução e a volatilidade dos mercados globais têm sido alguns dos principais desafios. No entanto, temos vindo a responder com mecanismos de acompanhamento próximo, simplificação procedimental e reforço da articulação entre as entidades executoras e os beneficiários. A existência de uma estrutura de missão, tem permitido uma governação mais ágil e orientada para resultados.

Que mecanismos estão a ser utilizados para monitorizar e avaliar o sucesso dos projetos apoiados pelo PRR e o seu impacto económico e social em Portugal?
O PRR dispõe de um sistema de monitorização robusto, sustentado em indicadores de execução, marcos e metas, contratualmente definidos com a Comissão Europeia. Paralelamente, estão em curso avaliações que analisam o impacto económico e social dos investimentos realizados. A transparência é garantida através do portal Recuperar Portugal, que disponibiliza de forma acessível e atualizada dados abertos sobre a execução do plano, promovendo assim uma cultura de accountability perante os cidadãos.

Com o PRR a aproximar-se da sua fase final, que instrumentos ou programas sucederão a este plano para continuar a impulsionar o crescimento da economia portuguesa?
A transição do PRR para o novo ciclo de políticas públicas será feita de forma estratégica, articulando os fundos do Portugal 2030, os instrumentos do InvestEU e a Plataforma de Tecnologias Estratégicas para a Europa (STEP). A prioridade será assegurar a continuidade dos investimentos transformadores iniciados com o PRR, garantindo uma trajetória de crescimento económico sustentável, inovador e coeso.

Na sua opinião, que futuro está reservado na economia portuguesa, para setores como o calçado? 
Setores como o calçado têm demonstrado uma notável capacidade de adaptação e liderança na incorporação de inovação e sustentabilidade. Com a ajuda do financiamento concedido pelo PRR, acredito que o setor continuará a afirmar-se internacionalmente, continuando a investir na inovação e no design e na qualidade, mas também pelos processos ecológicos e éticos. O futuro passará por uma aposta contínua em diferenciação, digitalização, sustentabilidade e internacionalização — pilares nos quais o sector do calçado pode e deve continuar a marcar posição para ganhar vantagens competitivas e valor acrescentado.

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