Com mais de 1,4 mil milhões de consumidores, uma classe média em rápido crescimento e uma indústria em transformação, a Índia está a caminho de se tornar o maior mercado e produtor mundial de calçado. Esta realidade abre oportunidades únicas para quem quer exportar, investir ou produzir localmente. De facto, o atual contexto internacional, potenciado pelas instabilidades económicas e dos diversos conflitos geopolíticos, representa um enorme desafio para as empresas portuguesas, que cada vez mais procuraram novos mercados para enfrentar esta incerteza crescente.
Esta abordagem ao mercado indiano contou com a participação de João Maia, da APICCAPS, de Miguel Crespo, delegado da AICEP em Nova Deli e dos oradores convidados, N. Mohan, especialista da indústria, Amit Chopra, diretor-geral da Shoes & Accessories India e de Rohan Gopakumar e Tripti Pandey da Invest India (Couro e Calçado). Com a moderação de Carlos Pacheco, da AICEP, o webinar contou ainda com os testemunhos empresariais de Erik Illig (Wilhelm Textiles/ex-Aerosoles) e de José Vila-Real (ex-Jefar).
O mercado indiano e o perfil do consumidor
Miguel Crespo, delegado da AICEP em Nova Deli, na Índia, na sua intervenção destacou o grande potencial que o mercado indiano representa “tanto pela sua dimensão como pela enorme estabilidade política, social e económica a que o país assiste desde a última década”. O delegado da AICEP afirma que a abordagem ao mercado passa pela “compreensão dos nichos”.
Para Erik Illig, a Índia “é um polo de produção em crescimento para o mercado internacional de calçado. Tendo em conta as guerras comerciais com a China e a instabilidade da região, muitas empresas procuram sair do país, e de momento não há muitos locais por onde escolher”.
A Índia produz e consome quase 2 mil milhões de pares todos os anos, com um consumo médio de 2 a 3 pares por pessoa, facto que os torna num dos três principais consumidores de calçado a nível mundial, segundo o Fórum Económico Mundial. A Índia jovem é casual, digital e obcecada por calçado desportivo, mas também por calçado mais formal.
As disparidades entre o mercado indiano e europeu na perspetiva do consumidor são acentuadas. “Enquanto que na Europa o consumidor exige uma transparência na produção e valoriza a utilização de materiais sustentáveis, que dão identidade ao produto, na Índia existe uma forte sensibilidade em relação ao preço (acessíveis), no consumo mais frequente de produtos de menor duração e na compra emocional (influenciada por celebridades e redes sociais)”, disse Miguel Crespo. De facto, os consumidores europeus são um público mais envelhecido e exigente pelo que o foco é no conforto e bem-estar, enquanto que os consumidores indianos, sendo um público mais jovem, o seu foco está na tendência, no visual e na afirmação pessoal.
Já N. Mohan afirma que “o consumidor indiano está a mudar e procura fatores que os diferenciem”, quase como “uma afirmação da personalidade individual”.
As expetativas para as empresas portuguesas
Como é que as empresas portuguesas podem aceder ao mercado indiano? Como devem abordar o mercado? Quais os riscos e as oportunidades de negócios?
O setor de calçado é muito importante para Portugal e obviamente orientado para o exterior – mais de 80% da nossa produção é destinada à exportação. Em relação às médias, a quantidade de calçados produzidos pela Índia, dividindo o total pelo número de empresas indianas, indica que as empresas portuguesas produzem mais sapatos. Já no que diz respeito à relação bilateral entre os dois países, “nós mal conseguimos vender um calçado para a Índia e, em contrapartida, o país exporta para Portugal mais de 30 milhões de euros”. Miguel Crespo sublinha que este fenómeno também se prende com o facto de “a Índia ser muito protetora neste setor”, posição partilhada por Amit Chopra e N. Mohan.
Para Amit Chopra “a Índia simplesmente não é um país. É uma população que praticamente poderia formar o seu próprio planeta”. É necessário perceber que a” Índia funciona com uma dinâmica única”, e só depois de “entender isso e de descobrir o “código” de entrada” é que os investidores “irão entender que a Índia não compra, mas constrói relacionamentos”.
Amit Chopra não tem dúvidas que “a herança de qualidade e design de Portugal não é apenas relevante, é desejada por esta geração”. Miguel Crespo também partilha da opinião realçando que “a Índia tem sido para nós portugueses uma fonte de inspiração há 500 anos”.
Mohan destaca ainda três formas de entrar no mercado indiano: através da criação de uma subsidiária, de uma joint ventures ou de um franchise a longo prazo com uma taxa de royalties fixa. Todos os modelos estão abrangidos pelos novos QCO’s (controlo de qualidade) implementados pelo governo indiano. Na sua intervenção destacou ainda que “os indianos são bons a montar, mas não são bons no desenvolvimento de design”, pelo que “uma combinação ideal passa por Portugal desenvolver o produto e o design e a produção ser realizada na Índia”.
Erik Illig destaca ainda que depois de se estabelecer na Índia, “onde as capacidades de produção são mais baratas e com altos padrões de qualidade”, a empresa pode estabelecer acordos de livre comércio com outros países asiáticos, alargando, assim o seu mercado.
Os desafios do mercado indiano
Erik Illig no seu testemunho diz que “a Índia tem uma mentalidade completamente diferente daquela a que estamos habituados na Europa”. Tem lacunas em termos de infraestruturas, tem uma base de fornecimento fragmentada, muitas barreiras burocráticas e barreiras culturais. Erik Illig deu o exemplo dos portos: “Se olharmos para os 10 maiores portos do mundo, sete estão na China e o maior porto da Índia, Navasiva, está classificado em 30º lugar mundialmente. Isso significa que, se exportar da Índia, da fábrica X para o embarque, levará cerca de duas a três semanas a chegar ao destino. Na China, em contrapartida leva cerca de dois a três dias”.
Já José Vila-Real destaca que na Índia temos de ter uma comunicação muito forte e eficaz “porque é muito difícil conseguir um comprometimento adequado nas datas de entrega”, que é um “fator-chave” nos negócios.
A comunicação é um ponto crucial e mais ainda devido às diferenças culturais que também podem existir dentro da estrutura organizacional. José Vila-Real argumenta que “é preciso ter paciência porque na Índia eles têm o seu próprio ritmo e precisamos ter a capacidade e habilidade de fazer as coisas funcionarem. “Pode parecer tudo caótico no início, mas no final funciona”.
A Índia é desafiadora? Sim. É sensível ao preço? Definitivamente. Mas está cheia de oportunidades? Absolutamente. Mas, como em qualquer mercado, é benéfico dedicar tempo para entender a profundidade das águas antes de iniciar a travessia.
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