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O Estado da Indústria

O Estado da Indústria

28 Oct, 2020

2020 aproxima-se rapidamente do fim. Poucos serão aqueles que recordarão este ano com alguma saudade. Todas as previsões, sem exceção, foram arrasadas. As melhores expetativas dizimadas por uma inesperada pandemia.

Até ao momento, mais de 49 milhões de pessoas foram afetadas pela pandemia COVID-19; mais de um milhão, por todo o planeta, padeceram, metade dos quais nos EUA (mais de 225 mil vítimas), Brasil (157 mil) e Índia (117 mil).
Ainda estão, no entanto, verdadeiramente por apurar as consequências da pandemia. No plano estritamente económico, as projeções mais recentes das instituições internacionais apontam para uma quebra acentuada da atividade económica mundial em 2020 que, de acordo com a Comissão Europeia, andará em torno dos -3,5 % (+2,9 % em 2019). Esta redução do produto interno bruto (PIB) só encontra paralelo na Grande Depressão de 1929, sendo extensível a todas as economias avançadas e a um conjunto alargado de países emergentes e em desenvolvimento, com um abrandamento expressivo da Ásia. A queda acentuada da atividade económica reflete o impacto da pandemia da doença COVID-19, mais concretamente a redução da atividade, a deterioração do mercado de trabalho e a maior instabilidade dos mercados financeiros internacionais.

No que concerne à área do euro, e de acordo com a Comissão Europeia, é igualmente expectável uma forte deterioração da atividade económica, com o PIB a contrair-se 7,7 % em 2020 (+1,2 % em 2019), com impacto negativo considerável na procura externa dirigida a Portugal (quebra de mais de dois dígitos para a maioria dos principais parceiros comercias do país). O desemprego na área do euro deverá situar-se em 9,6 %.

Montanha-russa
no calçado
O impacto da pandemia no setor do calçado foi quase imediato. Previsões do World Footwear apontam para uma quebra do consumo mundial de calçado em 22,5% este ano. Por outras palavras, serão comercializados, só este ano, menos 5,1 mil milhões de pares de sapatos em todo o mundo. Na Europa, o mercado de referência para o calçado português, a quebra é ainda mais expressiva: 27,5%.
“O ano será sempre uma desilusão. Começamos 2020 com a expectativa de seria um ano de afirmação nos mercados externos”, assume Joaquim Moreira. “Desde março, tem sido uma montanha-russa”, lamenta o homem-forte da Felmini. Sidónio Ribeiro acrescenta “2020 seria o melhor dos últimos cinco ou seis anos”. “Agora, só pensamos em sobreviver”, acrescenta o responsável da Jack Morgan.
De janeiro a agosto, Portugal exportou 43 milhões de pares de calçado, no valor de 1.042 milhões de euros. Em relação ao ano anterior, assinala-se um decréscimo de 16,9%.
“Os problemas sucedem-se todos os dias”, assegura Mauro Castro. Para o responsável da Marina “Portugal sempre foi forte na capacidade de resposta rápida, na flexibilidade produtiva, mas o mercado atual está completamente parado”.  De acordo com Mauro Castro, “o comércio online pode ser uma alternativa, mas apenas para alguns e a médio prazo, já que não resolve a atual quebra quase generalizada das encomendas”.  

Reinaldo Teixeira, da Carité, reconhece “o aumento das encomendas nos últimos meses”, mas que “ainda assim não compensam a quebra no início da pandemia”. ”Estamos melhor agora do que no inicio da pandemia”, acrescenta Maria João Lima, da Joia, mas “o clima de instabilidade continua bem presente e a causar apreensão”, sustenta Pedro Coelho, da Tofel.

Seguros, créditos e
absentismo
Para acentuar uma equação de complexidade acentuada, as empresas não dispõem de todas as garantias, em especial no que se refere às garantias de crédito. “Estamos por conta e risco”, lamenta Mauro Castro. “A situação atual é inadmissível”, acrescenta Joaquim Moreira. “Obriga-nos a uma grande pedagogia com os nossos clientes”, reconhece David Braga, da Valuni. Décio Pereira admite que “são os seguros de crédito que nos colocam maior à estabilização e mesmo crescimento do negócio”. Nesse contexto, defende o Administrador da Vapesol, “se o atual panorama se manter durante longos meses, não será fácil manter grande parte das estruturas”.
Alberto Meireles acrescenta: “deveremos estar preocupados com os efeitos da 2ª vaga”, sublinha. “Só lá para 2023 voltaremos a uma trajetória normal de crescimento”.
“A situação é complexa. É muito difícil gerir as encomendas com crescimento tão significados dos níveis de absentismo”, explica Jorge Fernandes, da Savana. Fortunato Frederico concretizar: “as faltam chegam a representar 25% do total”.

Colapso no retalho
É no retalho que o impacto da pandemia mais se faz sentir.
Macy's, Zara, Nordstorm, Starbucks, Victoria’s Secret. A lista parece interminável. Estas são algumas das lojas que anunciaram o encerramento em 2020. Estamos perante um apocalipse no retalho?

O aumento contínuo das compras online, com o impacto catastrófico do COVID-19 no retalho, fez um rastilho quase perfeito, que detonou numa lista extensa de encerramentos. De acordo com o relatório da Coresight Research, 20.000 a 25.000 lojas nos EUA poderão fechar permanentemente este ano. As primeiras 4.000 lojas estão já confirmadas. Mais da metade dos encerramentos previstos serão de lojas em shopping (já em perigo antes da pandemia), mas que enfrentaram desafios ainda maiores devido ao distanciamento social. “É um facto que as grandes cadeias de distribuição estão a migrar parte do seu negócio para o formato online, a pandemia que atravessamos apenas veio acelerar o que há muito estava anunciado, mas esta mudança não acarreta apenas aspetos negativos”, acredita Davide Pereira. Segundo o assistente comercial Be-mood, “não deveremos esquecer que o nosso tecido empresarial é necessariamente produtor, estas cadeias continuarão a necessitar de parceiros para se abastecer, e no novo modelo de negócio certamente terão de privilegiar parceiros com uma boa e principalmente rápida capacidade de resposta”.


Efeitos COVID

“O setor do calçado, tendo uma forte vocação exportadora, estará sempre dependente da evolução da pandemia”, considera Luís Onofre.

Para o Presidente da APICCAPS, os próximos meses serão ainda particularmente exigentes – a título de exemplo algumas das multinacionais de calçado instaladas em Portugal continuarão com parte da produção suspensa até meados do próximo ano - razão pela qual “os empresários devem estar atentos aos instrumentos disponibilizados pelo Governo, em especial linhas de crédito, moratórias bancárias ou layoff simplificado”. “São apoios importantes – continuou – que devem ser continuados no tempo. Temo vindo a conversar com o Governo sobre esse tema. Importa, do nosso ponto de vista, que alguns desses instrumentos como os seguros de crédito sejam substancialmente melhorados, porque são essenciais à atividade exportadora”.  
 

Os cenários futuros
Há vários indicadores à escala global que merecem uma atenção redobrada das empresas: a evolução dos mercados, o crescimento de novas gamas de produto ou o crescimento das vendas online.

“O mercado mudou. A generalidade dos agentes económicos está agora mais apreensiva. Há uma menor propensão para o risco. Será precisamente aqui que poderá residir a oportunidade para as empresas portuguesas”, aponta Alberto Meireles, “uma vez que dispõem de capacidade de resposta, nomeadamente a encomendas de menor dimensão”.  

Nelson Gomes aponta que “2020 até será o melhor ano para a Apple of Eden. A flexibilidade e a capacidade de resposta é o nosso grande argumento competitivo”, em especial para países europeus. A marca, com sede em Felgueiras, apresta-se para inaugurar um novo armazém, investindo um milhão de euros. “Somos uma empresa comercial, mas que subcontrata, normalmente, mais de 10 empresas portuguesas. Num período da nossa existência, testamos subcontratar alguma da nossa produção no exterior. Mas rapidamente percebemos que o facto preço não é mais importante, se o produto não for bom ou não existir capacidade de entrega. Portugal nesse domínio é uma grande referência”, assegura.

Sidónio Ribeiro lamenta que, tantas e tantas vezes, tudo se reduza ao fator preço. “Em Portugal há empresas com uma matriz moderna, com trabalho valorizado, que deve ser respeitado. Não somos os chineses da Europa”, critica.

“Temos produto, temos serviço e identidade”, acredita Nelson Gomes. Paulo Ribeiro, da Atlanta, acrescenta que “temos de otimizar o nosso planeamento para poder responder rapidamente aos nossos clientes”. Ana Maria Vasconcelos defende que “Portugal é um país de oportunidades”. “Quem tiver estrutura para uma resposta rápida e eficiente terá seguramente trabalho e encomendas”, concluiu.












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